Ponteiros ao Vento
Claudia Lemos
...quintais encantados
carregam a realidade
para o longe do tempo
o céu da infância
a janela mágica
o chão de terra
anéis de barbante
sorrisos no muro
pistas de capim
chão de giz
escrituras de tijolos
os olhos no fim da rua
o quitandeiro na porta
chamando sabores
o barulho eterno da serralheria
topadas em pedras
de amarelinhas
bandeirinha, lateiro-vivo
os gritos escada abaixo
o chinelo mandão
bicicleta sem freio
jogos de tabuleiro
dominós paternos
bingos maternos
liberdade da pipa
carinho com a bola
gudes marcadas
o pião do tempo
furando calendários
terça-feira, 19 de maio de 2015
quarta-feira, 13 de maio de 2015
O ATLÂNTICO A TUDO RESGUARDA
O Atlântico resguarda em suas profundezas a dor e os gritos daqueles
que foram caçados no coração da Mãe África. Os que suportaram a dor,
a fome, a sede, as correntes, os açoites e chegaram por aqui, ainda
tiveram que suportar todo tipo de humilhação até que seus descendentes
pudessem um dia se tornar PESSOAS.
Outrora animais negros, muitos se libertaram antes do destino, pela
doença, pelo rancor, pela incompreensão enfim...
A liberdade dos negros escravos exigiu deles uma jornada de luta
cuja única arma era a esperança aliada à paciência, a dor, a saudade
e o rancor que nenhum outro homem já pode sentir em seu coração.
Ser preto, negro ou crioulo, como queiram; sempre foi um rótulo imposto
pelos poderosos de todas as épocas.
Hoje, 127 anos após a libertação dos escravos no Brasil, ainda temos que deparar com tanta desigualdade, com o preconceito absurdo que nos leva a crer que apesar de todos os avanços, ainda existem pessoas paradas no tempo, medíocres; tão medíocres quanto aquelas do tempo por onde ficaram. O Atlântico ainda resguarda o eco dos gritos que partiam dos navios negreiros. Ainda resguarda a liberdade dos que foram atirados aos tubarões. Ainda resguarda em suas águas uma ponte invisível que no passado, mesmo ao preço da dor, interligou a força dos africanos perante a fraqueza dos senhores de então. A força negra da África construiu o novo mundo e nos legou negros talentosos em todos os segmentos da atividade humana. HUMANOS! É isto que somos todos.Sejamos brancos ou negros. Liberdade ainda é necessária! Que os preconceituosos possam encontrar a liberdade de que precisam e que é a mais difícil de ser alcançada. Aquela que liberta de seus corações o monstro de uma supremacia absurda. Eles também tem duas pernas, dois braços, dois olhos, dois ouvidos, um coração e infelizmente; um cérebro atrofiado. Eles só não tem a pele negra, mas quem garante que seus corações não sejam negros como um carvão?
O Atlântico a tudo resguarda!...
Hoje, 127 anos após a libertação dos escravos no Brasil, ainda temos que deparar com tanta desigualdade, com o preconceito absurdo que nos leva a crer que apesar de todos os avanços, ainda existem pessoas paradas no tempo, medíocres; tão medíocres quanto aquelas do tempo por onde ficaram. O Atlântico ainda resguarda o eco dos gritos que partiam dos navios negreiros. Ainda resguarda a liberdade dos que foram atirados aos tubarões. Ainda resguarda em suas águas uma ponte invisível que no passado, mesmo ao preço da dor, interligou a força dos africanos perante a fraqueza dos senhores de então. A força negra da África construiu o novo mundo e nos legou negros talentosos em todos os segmentos da atividade humana. HUMANOS! É isto que somos todos.Sejamos brancos ou negros. Liberdade ainda é necessária! Que os preconceituosos possam encontrar a liberdade de que precisam e que é a mais difícil de ser alcançada. Aquela que liberta de seus corações o monstro de uma supremacia absurda. Eles também tem duas pernas, dois braços, dois olhos, dois ouvidos, um coração e infelizmente; um cérebro atrofiado. Eles só não tem a pele negra, mas quem garante que seus corações não sejam negros como um carvão?
O Atlântico a tudo resguarda!...
quinta-feira, 7 de maio de 2015
A MOÇA DO CASARÃO
O terreno fora um dia tal como uma página em branco.
Uma página em branco provocativa, daquelas que faz o poeta atravessar a noite na tentativa de encontrar as palavras certas para sua nova criação.
Palavra primeira encontrada e os versos despencam como uma chuva de cintilantes pedras preciosas.
Preciosas palavras da escrita sobre coisa alguma. Vieram os homens e suas foices, seus ferros de cortar capim, suas enxadas...
Suores a brilhar peles sob a ardência do sol.
E assim começou a história de vidas, de personagens
reais, de pessoas que só vi de longe, em esporádicas passagens à bordo de uma charrete. Me parece às vezes que era o final do século dezenove
ou quem sabe; o começo do século vinte. Não tenho até hoje uma ideia correta a respeito disso, mas sei que vivi um pouco de cada uma dessas épocas bem ali, onde havia, nem sei como explicar, um enorme livro a ser escrito.
As primeiras madeiras chegaram juntamente com os pregos e dia após dia foi surgindo o casarão imponente. Tempos depois, já pronta a casa, começaram as estrofes coloridas de um jardim, suas rosas e seus cravos, suas abelhas e borboletas e palmeiras que se tornariam tão imponentes quanto ao dono da casa. Pelo menos eu sempre imaginei dessa forma.
Essa escrita inicial aconteceu muito antes das minhas esporádicas
passagens por ali, quando a gente cortava o estradão e deparava
com as poucas casas que existiam. Nestes tempos, eu ainda menino,
recordo que as madeiras do casarão já estavam desgastadas pelo tempo,
sem uma cor definida, sem vidas definidas também.
Nunca em minhas passagens eu tivera a chance de ver alguém daquela
casa, fosse no quintal, na frente da casa, na porta ou na janela.
Sempre fechada como um livro fechado na estante e que a maioria
acha que não tem nada de interessante que se possa ler. Mas tanto o livro quanto o casão fechados possuíam linhas, versos,
relatos, essas coisas todas de autores com canetas tinteiro ou
com ferramentas pesadas no cotidiano. Ventos com todos os poderes sopraram por ali durante anos e nuvens de todas as espessuras passearam por ali formando as misteriosas ilustrações daquela estranha escrita que só o tempo poderia compreender. Raios e trovões deram seu toque à cena trazendo a torrencialidade de tantas chuvas que fizeram o jardim verdejar e colorir, uma primavera após outra.
E eu continuei passando ali até que um dia, para minha surpresa, vi na
janela do sótão a figura de uma jovem mulher. Olhando o vazio ou talvez
o distante, em roupas que já não se via pelas ruas de então, como se
fosse uma invasora de épocas admirada com todas as mudanças da paisagem.
Naqueles tempos quem seria eu para tentar entender que poderiam existir
mundos paralelos? E que algumas pessoas de lá poderiam, às vezes, dar uma passeadela por aqui?
Só vi a moça da janela em duas ocasiões.Na segunda vez ela acenou lá do alto como se se fosse um adeus.

-Pedro Brasil Junior - Curitiba,PR - 07 de Maio- 2015
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