quinta-feira, 7 de maio de 2015

A MOÇA DO CASARÃO

O terreno fora um dia tal como uma página em branco. 
Uma página em branco provocativa, daquelas que faz o poeta atravessar a noite na tentativa de encontrar as palavras certas para sua nova criação.
 Palavra primeira encontrada e os versos despencam como uma chuva de cintilantes pedras preciosas. Preciosas palavras da escrita sobre coisa alguma. Vieram os homens e suas foices, seus ferros de cortar capim, suas enxadas... Suores a brilhar peles sob a ardência do sol. 
E assim começou a história de vidas, de personagens reais, de pessoas que só vi de longe, em esporádicas passagens à bordo de uma charrete. Me parece às vezes que era o final do século dezenove ou quem sabe; o começo do século vinte. Não tenho até hoje uma ideia correta a respeito disso, mas sei que vivi um pouco de cada uma dessas épocas bem ali, onde havia, nem sei como explicar, um enorme livro a ser escrito. 
As primeiras madeiras chegaram juntamente com os pregos e dia após dia foi surgindo o casarão imponente. Tempos depois, já pronta a casa, começaram as estrofes coloridas de um jardim, suas rosas e seus cravos, suas abelhas e borboletas e palmeiras que se tornariam tão imponentes quanto ao dono da casa. Pelo menos eu sempre imaginei dessa forma. Essa escrita inicial aconteceu muito antes das minhas esporádicas passagens por ali, quando a gente cortava o estradão e deparava com as poucas casas que existiam. Nestes tempos, eu ainda menino, recordo que as madeiras do casarão já estavam desgastadas pelo tempo, sem uma cor definida, sem vidas definidas também. Nunca em minhas passagens eu tivera a chance de ver alguém daquela casa, fosse no quintal, na frente da casa, na porta ou na janela. Sempre fechada como um livro fechado na estante e que a maioria acha que não tem nada de interessante que se possa ler. Mas tanto o livro quanto o casão fechados possuíam linhas, versos, relatos, essas coisas todas de autores com canetas tinteiro ou com ferramentas pesadas no cotidiano. Ventos com todos os poderes sopraram por ali durante anos e nuvens de todas as espessuras passearam por ali formando as misteriosas ilustrações daquela estranha escrita que só o tempo poderia compreender. Raios e trovões deram seu toque à cena trazendo a torrencialidade de tantas chuvas que fizeram o jardim verdejar e colorir, uma primavera após outra. E eu continuei passando ali até que um dia, para minha surpresa, vi na janela do sótão a figura de uma jovem mulher. Olhando o vazio ou talvez o distante, em roupas que já não se via pelas ruas de então, como se fosse uma invasora de épocas admirada com todas as mudanças da paisagem. Naqueles tempos quem seria eu para tentar entender que poderiam existir mundos paralelos? E que algumas pessoas de lá poderiam, às vezes, dar uma passeadela por aqui? Só vi a moça da janela em duas ocasiões.Na segunda vez ela acenou lá do alto como se se fosse um adeus. 

O casarão com paredes sem cor e seus lambrequins intactos ainda resistiu por muito tempo naquela página de uma história que jamais pude ler e que nem ao certo sei como foi escrita. Paredes, lambrequins, jardins, palmeiras, telhas e janelas grotescas jamais poderiam nos contar o que sucedeu ali ao longo de uma ou de várias vidas. Foram-se os dias, novas chuvas e muitos raios. O estradão de terra com seus barrancos avermelhados deu lugar ao asfalto. O casarão sucumbiu um dia qualquer e a moça da janela, em sua outra dimensão, creio eu, perdeu de vez o último sorriso por entre suas lágrimas de duas vidas. A cada tempo antigo que se esvai e dá lugar ao novo , as mudanças, presumo, também interferem no âmago daquilo que vive para sempre; a alma da gente.

-Pedro Brasil Junior - Curitiba,PR - 07 de Maio- 2015

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