quarta-feira, 21 de outubro de 2009

SÓ UM LEMBRETE DO QUINTANA

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são seis horas!
Quando se vê, já é sexta-feira...
Quando se vê, já terminou o ano...
Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida.
Quando se vê, já passaram-se 50 anos!
Agora é tarde demais para ser reprovado.

Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio.
Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas.
Desta forma, eu digo:
Não deixe de fazer algo que gosta, devido à falta de tempo,
pois a única falta que terá,
será desse tempo que infelizmente não voltará mais.


(Mário Quintana)

terça-feira, 13 de outubro de 2009

POR QUE O MAL NÃO EXISTE?

Alemanha - Inicio do século 20

Durante uma conferência com vários universitários, um professor da Universidade de Berlim desafiou seus alunos com esta pergunta:
“Deus criou tudo o que existe?"
Um aluno respondeu valentemente:
Sim, Ele criou…
Deus criou tudo?
Perguntou novamente o professor.
Sim senhor, respondeu o jovem.
O professor respondeu, “Se Deus criou tudo, então Deus fez o mal? Pois o mal existe, e partindo do preceito de que nossas obras são um reflexo de nós mesmos, então Deus é mau?"
O jovem ficou calado diante de tal resposta e o professor, feliz, se regozijava de ter provado mais uma vez que a fé era um mito.
Outro estudante levantou a mão e disse:
Posso fazer uma pergunta, professor?
Lógico, foi a resposta do professor.
O jovem ficou de pé e perguntou: professor, o frio existe?
Que pergunta é essa? Lógico que existe, ou por acaso você nunca sentiu frio?
O rapaz respondeu:" De fato, senhor, o frio não existe. Segundo as leis da Física, o que consideramos frio, na realidade é a ausência de calor. Todo corpo ou objeto é suscetível de estudo quando possui ou transmite energia, o calor é o que faz com que este corpo tenha ou transmita energia.
O zero absoluto é a ausência total e absoluta de calor, todos os corpos ficam inertes, incapazes de reagir, mas o frio não existe. Nós criamos essa definição para descrever como nos sentimos se não temos calor"
E, existe a escuridão? Continuou o estudante.
O professor respondeu: Existe.
O estudante respondeu:
Novamente comete um erro, senhor, a escuridão também não existe. A escuridão na realidade é a ausência de luz.
“A luz pode-se estudar, a escuridão não!
Até existe o prisma de Nichols para decompor a luz branca nas várias cores de que está composta, com suas diferentes longitudes de ondas.
A escuridão não!
Um simples raio de luz atravessa as trevas e ilumina a superfície onde termina o raio de luz.
Como pode saber quão escuro está um espaço determinado? Com base na quantidade de luz presente nesse espaço, não é assim?
Escuridão é uma definição que o homem desenvolveu para descrever o que acontece quando não há luz presente”
Finalmente, o jovem perguntou ao professor:
Senhor, o mal existe?
O professor respondeu: Claro que sim, lógico que existe, como disse desde o começo, vemos estupros, crimes e violência no mundo todo, essas coisas são do mal.
E o estudante respondeu:
O mal não existe, senhor, pelo menos não existe por si mesmo. O mal é simplesmente a ausência do bem, é o mesmo dos casos anteriores, o mal é uma definição que o homem criou para descrever a ausência de Deus.
Deus não criou o mal.
Não é como a fé ou como o amor, que existem como existem o calor e a luz.
O mal é o resultado da humanidade não ter Deus presente em seus corações.
É como acontece com o frio quando não há calor, ou a escuridão quando não há luz.

Por volta dos anos 1900, este jovem foi aplaudido de pé, e o professor apenas balançou a cabeça permanecendo calado…
Imediatamente o diretor dirigiu-se àquele jovem e perguntou qual era seu nome.
E ele respondeu:
ALBERT EINSTEIN.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

O CAÇADOR DE BORBOLETAS

O relógio tem o poder de dividir os dias em horas, mas felizmente, este senhor absoluto de nossas vidas não pode realmente encarar a força e o poder do tempo. Ao nosso redor, as horas se esvaem como as areias de uma ampulheta e nós, atribuímos aos nossos inventos toda a precisão possível. A seu modo, no entanto, a natureza segue silenciosa em sua eterna oração aos céus e enquanto isto, o tempo carrega suas ferramentas mais preciosas e a tudo transforma com um talento invejável. Para não criar confusões, ele, o tempo, definiu suas atribuições em quatro estações apenas, onde sua passagem e sua parada é sempre marcante e recheada de mistérios que a maioria dos homens desconhece. Tudo o tempo todo ao nosso redor está em constante movimento e sincronia, mesmo que nós, através de nossa racionalidade, deixemos de perceber. Nós mesmos estamos a cada segundo celebrando transformações interiores significativas e a maioria delas acontece sem que nada possamos sentir de fato e de direito. Ouvi alguém dizer não faz tanto tempo, que “envelhecer é obrigatório, crescer é opcional”. Confesso que fiquei constrangido diante de uma frase tão pequena, mas cujo alcance ultrapassa as mais longínquas distâncias da nossa pequena Via Láctea. Não a menosprezo quando lhe digo “pequena”, afinal de contas, o Universo é tão grande que realmente não podemos contestar a maior de todas as verdades: nós somos, cada um, um ínfimo grão de areia dentro desse incomparável conjunto criado por uma essência maior, cuja sabedoria lhe permitiu oferecer tantas maravilhas. Para cuidar disso tudo, nomeou o Tempo como seu fiel capataz e este, implacável, segue, sabem-se lá a quantos milhões de anos, cumprindo a sua grandiosa missão de transformar tudo e todos e dessa maneira, prover de novidades todas as estações por onde obrigatoriamente passa a cada período específico. Seus feitos e exemplos podem ser observados de várias maneiras, através de todas as ciências, de todas as religiões, de todos os olhares que, por alguma razão percebem “o diferente” ao redor. Talvez o maior exemplo da transformação seja a borboleta, um ser tão frágil e gracioso cujas cores impressionam nosso olhar e cuja sutileza encanta qualquer jardim, em qualquer lugar do mundo. A lagarta ordinária move-se lentamente por entre as ramagens, sofrida, ameaçada e completamente imperceptível. Sua vida é rastejar humilde e comer folhas o tempo todo. Ela lembra muitos homens que um dia foram “lagartas” e que depois, com muita força de vontade conseguiram ganhar asas e dar seus altos vôos. A lagarta cria o seu casulo e se isola nesta solidão implacável e duvidosa, porém, dentro de um tempo específico, ei-la saindo, desabrochando como a flor mais bela e ruflando suas asas coloridas por entre a paisagem. Seu destino: as flores, o néctar, a prontidão de ser agora alguém diferente e que a todos os olhares desperta atenção. O tempo, este artista sorrateiro nos reservou a borboleta para demonstrar o quanto devemos ser gratos pelo que somos, pelo que temos e pelo que podemos fazer para ajudar os outros. Da mesma maneira, através da borboleta, ele nos indica que o Criador nos proveu sim, de uma alma, de um espírito, capaz de promover mudanças em si próprios e a isto, da-se o nome de evolução. Podemos evoluir todo o tempo também, através de nossas atitudes mais simples, através do nosso olhar mais puro e tênue, admirando o que nos cerca e nos dignifica neste majestoso planeta Terra. Outrora, os objetos de coleções eram raros. Refiro-me a uma época muito distante e imagino que naquele tempo, as borboletas eram um desses focos, quando muitos saiam à sua caça para deter espécies diferentes, cruelmente espetadas por um tipo qualquer de alfinete numa madeira leve talvez. A prática durou muito e é provável que ainda hoje existam esses indivíduos insensíveis, que as capturam sem uma razão que vá além do capitalismo. Certa ocasião conheci um homem que tinha, em seu escritório, dois quadros repletos de borboletas de todos os tipos, tamanhos e cores e ele se orgulhava por aquilo. Nesta época, eu ainda dava meus primeiros passos no jornalismo filatélico e foi quando descrevi a ele tudo o que até então eu sabia sobre filatelia e é claro, aproveitei para aguçar o seu desejo através dos selos postais que retratavam borboletas. Nossa conversa repetiu-se, porque ele sentiu que havia cometido vários atos indevidos e tirado dessa maneira a oportunidade daqueles seres alados continuarem a enfeitar a paisagem. Deu um fim em seus quadros de borboletas e em seus apetrechos usados para caçá-las. Soube que as espécies eles doou para um instituto de pesquisas e depois disso, trocou os quadros por brilhantes álbuns de selos onde começou a colecionar todas as borboletas que já conhecia e tantas e tantas outras que nem imaginava existir. A filatelia temática adentrou em sua vida por algum tempo, pois infelizmente o homem, que já tinha idade avançada, acabou falecendo. Mas dentre os selos que tinha em seus dois álbuns, deixou algo escrito: “Passei grande parte da minha vida aniquilando sonhos coloridos. Eu não sabia como as borboletas nasciam. Eu achava que elas apareciam repentinamente. Agora que os selos me fizerem descobrir, agora que já é tão tarde, me permito logo, adentrar em meu casulo. E peço ao Criador que em minha próxima existência, não me dê asas. Que apenas me oferte a oportunidade de voltar com total consciência a respeito de todas as belezas que me cercam e que, portanto, fazem parte da minha própria existência”.

- PEDRO BRASIL JUNIOR -

Publicado originalmente na Usina de Letras - www.usinadeletras.com.br
São José dos Pinhais, 02 de outubro de 2009 – 01h15min

domingo, 27 de setembro de 2009

UMA DOCE FESTA PARA SÃO COSME E SÃO DAMIÃO

Há quase três décadas as crianças da região do bairro Afonso Pena em São José dos Pinhais, vivem uma data toda especial uma vez a cada ano: é o Dia de São Cosme e São Damião, ocasião em que a Tia Marina reúne a criançada para juntos, dividirem estes momentos de intensa alegria e comemoração. São 27 anos em que este dia envolve muito mais do que a alegria irradiada afinal, são quase quinhentas crianças a cada ano que ali chegam para provar deliciosos bolos, refrigerantes de vários sabores, cachorro-quente e o melhor de tudo: levar consigo um pacotinho com balas, pirulitos, pipoca e uma gama de outras guloseimas que nenhuma criança dispensa. Quando este compromisso teve início, Tia Marina teve no primeiro ano um numero pequeno de crianças, porém, no ano seguinte eles vieram em número surpreendente e encheram o coração dela de mais alegrias ainda. Isto porque também há 27 anos ela deu início ao Natal da Criança Feliz, quando reúne outro contingente de crianças carentes e seus familiares para juntos celebrarem a chegada do Natal. Nesta festa, que acontece geralmente uns três ou quatro dias antes do Natal, Tia Marina distribui, através de apadrinhamentos, brinquedos, roupas, calçados, cestas básicas e promove também várias mesadas com risoto e refrigerante à vontade. Na festa de Cosme e Damião, ela e uma equipe de colaboradores reúnem os doces, distribuem folhetos convidando a criançada e assim, a data é comemorada com muito brilho, não ficando de fora uma oração para a todos abençoar e assim, pedir ao bom Pai para que tudo aquilo se repita no próximo ano. A festa da criançada aconteceu neste domingo, dia 27 de setembro das 14 as 17 horas e lá estavam todos eufóricos mais uma vez. Trabalho é o que não faltou para toda a equipe presente, cada um imbuído de uma missão específica, que sempre envolve os cuidados com a entrada bem organizada para a mesada, os preparativos para os pratos e refrigerantes, a distribuição dos pacotinhos com guloseimas entre outros aspectos. Na festa do Natal tudo se repete, no entanto, desta feita o trabalho é dobrado, porque além da garotada toda reunida e ansiosa para receber os presentes das mãos do Papai Noel, a equipe tem que se desdobrar para organizar os pacotes de acordo com as fichas onde constam os nomes das crianças, dos seus pais, suas idades, numero de roupa e calçado e a entrega da cesta básica para cada família devidamente cadastrada. Mas além do trabalho, Tia Marina tem que batalhar muito para conseguir a ajuda necessária para que todos possam receber seus presentes e assim, passarem um Natal mais feliz.

COMO VOCÊ PODE AJUDAR


Os preparativos para o Natal da Criança Feliz deste ano já começaram e todas as famílias cadastradas já tiveram suas fichas atualizadas de modo que, crianças recebem presentes até os 12 anos de idade.
O mecanismo funciona da seguinte maneira: você apadrinha uma criança, oferecendo uma roupa, um calçado e um brinquedo. Pronto! No Natal vamos ter mais uma criança carente feliz e envolvida no espírito natalino. São atendidas a cada ano aproximadamente 400 crianças oriundas de cerca de 120 famílias carentes que vivem nos bairros da periferia de São José dos Pinhais. A sua ajuda é sempre benvinda e para obter maiores informações, é só fazer contato com a Tia Marina pelo e-mail: mabrasilr@yahoo.com.br – Lembrando a todos que, além de contribuir e fazer uma criança feliz, você também pode participar da festa para comprovar toda a felicidade dessas crianças. Nós aproveitamos o ensejo para transmitir à Tia Marina, em nome de todas as pessoas que sempre colaboram, o nosso carinho e respeito pela sua atitude tão nobre em acolher esses coraçõezinhos e lhes oferecer tamanha alegria e felicidade. Que o seu coração, Tia Marina, prossiga sendo este gigante bondoso que ao longo desses 27 anos vem promovendo tantas alegrias e provando a todos que com um pouquinho de amor, é possível proporcionar tantas alegrias e fazer dessa maneira, com que o mundo seja muito melhor e mais justo.

terça-feira, 15 de setembro de 2009

AINDA QUE OS SONHOS PASSEM DO PONTO...

Dentre os doze meses do ano, setembro é um dos que mais aprecio, porque ele demarca a chegada da Primavera, por sinal, uma das estações mais belas. É a época em que a vida se renova feita borboleta que sai do casulo e, além disso, as árvores ganham nova roupagem verdejante e muitas delas, apetrechos multicores nas mais variadas formas florais. A cada ano sempre fico atento para esta época maravilhosa e justo agora, quando setembro adentrou pelo calendário, me pego atarefadíssimo em minhas atividades profissionais e nestes últimos quinze dias, sinceramente, não tive como chegar até aqui para registrar as curiosidades, as piadas, as mensagens, os lançamentos de livros, as peças de teatro e tantas outras coisas com as quais a gente interage a cada mês que se esvai. Dentro do que for possível, prometo não dar um espaço tão grande, no entanto, saibam, a todos que interessar que meu dia começou às nove da manhã desta segunda-feira, dia 14 e já estou a uma da manhã deste dia 15, aqui, em frente ao computador traçando estas linhas num esforço que me divide entre o teclado e a cama, que me espera logo ali. Bem; os sonhos podem esperar um cadinho mais e ainda que porventura “passem do ponto”, tenho absoluta certeza de que vão continuar bem doces, como deve ser um bom sonho, bem recheado de maravilhas que encantem a alma por onde ela achar que deve ir dar sua voltinha de praxe. Já aqui, diante dessa maravilha tecnológica que é o computador, um esforço a mais sempre valerá a pena, até porque, logo mais um novo dia vai raiar e lá vamos nós, para nossas jornadas de trabalho sem que se possa permitir o descuido de não admirar de verdade a fantástica dádiva de estar vivo e poder usufruir das maravilhas que o mundo oferece. Sei que todos temos nossos problemas, mas eles; devem fazer fila e a gente vai resolvendo um de cada vez afinal, o dia tem 24 longas horas e ainda que a gente fique sem tempo para muitas coisas, não se pode deixar passar a chance de dedicar alguns minutos para abraçar quem se ama ou então, dar uma ligadinha só para desejar aquele fantástico “bom dia!”. Setembro está ai e daqui a pouco, é Primavera no ar uma vez mais e que esta estação contagiante possa preencher a alma e o coração de cada um de vocês com a sua inimitável magia de nos mostrar o quanto a vida é bela, o quanto viver faz bem à própria existência. Feliz Primavera a todos vocês e obrigado pelas visitas diárias a este espaço.

-Pedro Brasil Jr -

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

CHUVA


Minha grande amiga Zenaide continua firme, inspirando poesias a todo instante. Hoje, não poderia deixar de abrir espaço para compartilhar com você mais uma de suas criações.


CHUVA
Zenaide Giovinazzo


Delicia um banho de chuva!
Molhar a roupa, os cabelos,

deixar lavar a alma
e libertar todos os apelos...
Alguns presos na garganta outros no
coração
fustigados pela chuva
vão caindo pelos vãos...

Escorrem pela calçada
levam junto
a inclemência
e nesse banho
de chuva
é devolvida a inocência...
SP/18/10/08

quarta-feira, 29 de julho de 2009

FRONTEIRAS DO DESCONHECIDO

Primeiro aprendi a contemplar o céu e deixei meu olhar se perder na imensidão azul. Depois, descobri nas nuvens uma incrível magia de formas como se fossem ilustrações de um gibi da alma. Depois, tive que aprender a observar a escuridão e meus olhos descobriram aos poucos os pontos cintilantes tão distantes quanto a vontade de se possuir um diamante. As estrelas estavam lá apontando para o infinito... Tempos depois fui descobrindo o encanto desses seres alados que batem suas asas de um lado para outro, dando um toque todo especial à paisagem. Pássaros multicores disputando espaços com as andorinhas acizentadas. Libélulas dando rasantes por sobre as águas e nas flores, colibris e borboletas em sua dança inimitável.
Foi assim que meus olhos despertaram para os encantos da existência e muito tempo depois é que meu coração foi entender o perfeito sincronismo do universo. Tudo parecia ser e acontecer apenas no meu jardim. Porque aquilo tudo era o meu mundo e, embora houvesse o desconhecido, ele jamais havia atiçado minha curiosidade. As fronteiras desse desconhecido eram as mesmas que delimitavam a minha alma e portanto, o meu jardim , embora fosse uma partícula do universo, era o meu gigantesco mundo. Não haviam outros olhos que pudessem se perder em todas aquelas maravilhas e o que eu não sabia, era que outros olhos haveriam de pincelar sorrateiros aquilo tudo sem, no entanto, assimilar absolutamente nada; a não ser o meu segredo maior, que era apenas e tão somente o meu olhar. Aqueles olhos passaram como um cometa brilhante e me fizeram, pela primeira vez, pensar nas possibilidades do desconhecido, a começar por aqueles olhos flamejantes e inoportunos. Mas apesar disso me mantive em meus domínios embora algo estranho se processasse nos confins da minha alma. Sim; ela passou por aqui batendo suas asas de cristal tão frágeis, vôou ao redor de tudo e depois desapareceu no horizonte para sempre.
Ficaram mais coloridas as flores, as aves, os colibris e as borboletas e o que era verde ficou ainda mais vistoso e uniforme. Só meu coração é que pulsava diferente, porque mesmo que eu não aceitasse, havia descoberto uma possibilidade e ela se chamava paixão. Aprendi então a me apaixonar, ainda que platonicamente.... Fiquei pelo tempo vivendo da imaginação e tive que aprender a olhar o universo por outros ângulos. Aprendi a arte da espera e da paciência. Tinha a confiança de que num belo dia ela voltaria, com suas asas vistosas e aqueles olhos que mais se pareciam com dois portais que levavam a um admirável mundo novo. Aprendi também que a espera não valia a pena e segui cuidando do meu mundo e de todos os detalhes que exigiam a ação do meu olhar e a destreza de minhas mãos. Meu jardim; meu mundo – estavam perfeitos, com o céu azulado, a passarada em algazarra e as flores desabrochando a todo instante. E nas noites, lá estavam elas, cintilantes a pulsar no infinito. Aprendi a olhar as estrelas e depois a contá-las até adormecer e mergulhar em meus sonhos mais estranhos. Aprendi também a me debruçar na janela e a ficar compenetrado no nada. Talvez ela estivesse por lá, porque se ela fosse apenas uma ilusão, também seria nada. A verdade é que jamais regressou e passei a admitir que tudo aquilo teria sido sim, uma grande ilusão ou quem sabe uma daquelas miragens que nos atacam nos instantes em que o corpo fraqueja. O tempo sempre foi implacável e nunca parou. O meu jardim, o meu mundo, passaram por transformações significativas também. E certo dia, me peguei diante do espelho e fixei meu olhar em meus próprios olhos. Aquilo me surpreendeu e me assustou. Eu estava frente a frente com alguém que na verdade eu nem conhecia direito. Foi assim que consegui mergulhar naqueles segredos da minha alma e lá, num jardim tão maravilhoso quanto o meu, descobri a presença daquele olhar num ser alado que nada mais era do que a própria transformação. Foi assim que aprendi um pouco mais de quem sou e um tanto a mais de tudo o que me cerca neste imenso jardim.

( Pedro Brasil Júnior )

Curitiba – 29 de julho- 2009-07-29 22h20min

*Publicado originalmente na Usina de Letras - www.usinadeletras.com.br