Primeiro soa o relógio
digital do celular. Depois entra em ação o relógio biológico. Meu corpo se
ressente e minha mente faz a pergunta que virou costume: Quais dores teremos
para hoje?
Às vezes é o ciático,
noutras ocasiões a coluna e tem aqueles dias em que dói a alma. Vou ter que sair da cama mesmo?
E uma doce e sutil voz diz: “Vai
lá e encara a vida de frente!”.
Então começa mais um dia com
aquelas trinta e poucas mensagens de “bom dia” no celular. E que o dia seja bom
mesmo!
O mundo lá fora vive de
pedir um pouco de tudo. Emprego, vacina, água potável, comida, remédios... E o
que incomodam a Deus com isto é coisa de doido. Se por onde vive a Grande Alma
existir um Serviço de Atendimento ao Cliente pode ter certeza de que todas as
linhas vivem ocupadas. Sorte a sua se de repente for atendido em vias assim
diretas. O melhor conselho é procurar os “ouvidores” terrenos que tem sempre
uma carta na manga e um coelho na cartola para operar um suposto milagre a
módicos dez por cento da sua renda. Concorrem furtivamente com o Leão da
Receita que suga com toda pompa parte do suor do seu trabalho e sem cerimônia
alguma.

Bem; o dia é de pedir – mais um, aliás – e ouço palmas no portão.
Primeiro um rapaz magricela pedindo cinco ou dez centavos. O que você vai fazer
com tanto dinheiro assim? Pergunto com um sorriso nos lábios. Ele me olha meio
assustado, meio encabulado e fica mudo. Então peço que aguarde e logo lhe trago
uma cédula de dois reais. Sua expressão muda e surge um sorriso leve. Ele
abençoa a atitude e desaparece lá adiante, bem na entrada de um boteco. Lá foi
enganar a fome com a essência da tal “marvada”. E olha; bendita seja a cana que
nos dá o açúcar, o etanol e para muitos a ilusão de estômago forrado.
Pouco depois outras palmas.
Agora um vendedor de alfajor que pertence a uma instituição com nome estranho.
No peito, o “cara-crachá” feito a “pau-a-pique”. Cada um se vira como pode...
Hora de abrir aquela gaveta
farmacêutica e decidir entre um Torsilax ou um Dorflex. É meu amigo, depois dos
cinquenta a gente vira “Flex” e pode ser movido a chá, café ou Coca-Cola
afinal, “isso é que é!” e lá vou para os afazeres e compromissos do dia depois
de uma noite de sono inquieto em função das certezas e das incertezas que nos
cercam. O que sei é que lá longe existem mentes brilhantes dedicadas à vida e
mentes maquiavélicas dedicadas à morte. É uma guerra sem fim, tanto aqui quanto
em estágios da espiritualidade de onde, todos os dias nos enviam novos guerreiros
para que possam por aqui evoluir e quem sabe; ajudar a melhorar este mundo
infernal.
Já com minha quase
inseparável máscara, porque às vezes tenho que voltar porque a esqueci, vou às
ruas para resolver pequenas causas, caminhando em terreno minado por este vírus
que segue matando muitos e que por uma legião segue sendo ignorado como perigo
real. Volto rapidinho e me aconchego nesta cadeira diante do computador para
esmiuçar as notícias e topar com as coisas mais estapafúrdias que este século
tão tecnológico foi capaz de produzir na maioria das pessoas. Vou à janela e
recebo uma golfada de vento. Um vento que me sequestra para a beira do mar e
deixo a imaginação seguir aguçando todos os sentidos. O aroma marítimo, o pisar
na areia, aquele molhar os pés na água e a visão das gaivotas em rasantes em
meio às ondas para pescar. Tateio o rebuliço das ondas que quebram catando
algumas conchinhas e me vem à boca um delicioso gosto de viver. Então volto à
cadeira, às divagações e recordo que no final da noite passada estive nos
confins de Moçambique, a terra do escritor Mia Couto, através de um dos seus
livros que acabei de ler. É outra terra que integra o planeta, mas lá tem um
bom tanto do que por aqui tanto urge. A esperança, o fim da fome, a água
potável e a vontade de dançar na chuva para exaltar uma alegria tão pura e
necessária. Então não devemos falar de bandeiras, mas falar de gente, ainda que
em culturas diferentes, mas são pessoas que desejam o mínimo que esta grande
casa oferece: simplesmente viver!
Diz o Mia Couto com uma
visão muito profunda: “ Só existem duas Nações no mundo, a dos Vivos e a dos
Mortos”! – Vivamos, ora, pois, ainda que com os Dorflex de cada dia.
- Pedro Brasil Jr – 27/01/2021