segunda-feira, 19 de outubro de 2020
QUANDO DEUS FALA COM A GENTE
Escrevi hoje bem cedo essas três linhas:
“Bem-Te-Vi no parapeito da janela
Espiou, não viu nada, se foi...
Bem que eu Te Vi !”
Veio do nada e eu nem tinha visto ou ouvido um Bem-Te-Vi.
Mas ali por perto do meio-dia eis que surge a pouco mais de um metro este belo exemplar de Bem-Te-Vi.
Ficou ali tranquilo, imponente e fazendo poses para as fotos.
Bem que Te Vi e captei este instante mágico.
Bem que na Alma a mensagem se completou.
Porque Deus tem maneiras especiais de falar com a gente...
- Pedro Brasil Júnior - 19/10/2018
O ABRAÇO DO TAMANDUÁ
Livre e solto em seu habitat só tive a chance de ver um tamanduá uma única vez quando ainda menino. As pessoas de então diziam que era um bicho perigoso. Foram necessários muitos anos para que finalmente eu pudesse descobrir que não eram, necessariamente, tão perigosos assim. De uma beleza incrível, os tamanduás esmiúçam os cupinzeiros para se alimentar e dão um toque especial a qualquer cenário dito selvagem.
Nestes tempos de fogaréu ali pelo Pantanal sabemos que muitas espécies sucumbiram e muitos exemplares da fauna foram salvos por pessoas decididas a esta tarefa tão importante e complicada. São pessoas que empunham a bandeira da preservação e vão à luta, mesmo expondo-se às ameaças do fogo ou até mesmo a ataques de animais peçonhentos. Assim, deparo neste universo da internet com um vídeo feito lá naquelas bandas onde um jovem caminha sendo seguido por um tamanduá. Ele resgatou o animal com seu filhote e agora, adotados, mãe e bebê não desgrudam do rapaz e dos seus cuidados. Carinho e dedicação aliados ao respeito integram sim as ditas feras à fera maior que pode se transformar um homem. Aquele jovem empunhou a bandeira da bondade e da consciência ecológica e a mamãe tamanduá com seu filhote nas costas sabe que ali está segura para perpetuar sua espécie já tão ameaçada. A natureza nos tem ofertado tantos exemplos, mas ainda assim a ganância e o desrespeito do homem se fazem mais fortes a ponto de aniquilar imensas áreas em detrimento dos altos lucros através do agronegócio. O mundo precisa de alimentos, mas a alma humana precisa de muito mais.Então eu fico com o abraço
do tamanduá e empunho a sua bandeira em defesa da proteção das nossas matas e
de todos os nossos “bichos perigosos” cuja capacidade de fera se rende ao homem
num pedido de socorro jamais pensado.
-Pedro Brasil Jr – 19/10/2020 -
quarta-feira, 14 de outubro de 2020
QUERO MEU LUGAR NO QUEIJO
Campanha política é coisa invulgar porque na visão da maioria dos candidatos o objetivo é aquela cadeira onde se exerce o cargo para o qual se foi eleito. Para chegar ao queijo e suas delícias existem as regras do jogo e, como em todo jogo, sempre existem os que tentam burlar, usando dos mais criativos artifícios e, em sendo assim, despertando a ira nos concorrentes que ficam atentos a toda ação que porventura venha a infringir a regra da disputa. Enquanto a campanha dispara, as pesquisas vão revelando preferências e o contingente de candidatos vai criando suas estratégias, o eleitor, aquele que escolhe o seu representante, recebe os santinhos e nem se arrisca a rezar. Pior é que a maioria dos eleitores deixa para escolher alguém às vésperas da eleição e muitos até no dia quando, sem muita opção, escolhem aleatoriamente alguém ou votam em branco ou anulam seu voto, coisa que não é boa para a democracia.
O queijo está lá à espera dos que chegarem à frente, tal qual na concepção de cada indivíduo cujo espermatozoide ganhou a corrida e lhe deu direito à vida. Da mesma maneira, creio eu, em se tendo direito à vida pelo mérito da “vitória” que na disputa aos cargos eletivos, os que forem agraciados com maioria de votos que deixem de focar na cadeira, nos salários e nas vantagens e que observem a real função e que façam valer seus projetos, dentro de todos os parâmetros, a fim de que a cidade, seja ela qual for, possa ganhar todas as melhorias necessárias em detrimento de uma qualidade de vida melhor para sua gente. Sim; o queijo é convidativo, mas o eleitor precisa, antes do pleito, analisar seus candidatos, ver seus projetos, olhar a cidade onde vive como ela se encontra para ver se realmente as propostas dos candidatos do momento são possíveis, melhores do que a atual administração vem realizando e se muitas dessas propostas/promessas podem ser realizadas com recursos do próprio município. Do contrário; o queijo poderá ser maravilhoso para muitos, mas o eleitor é quem acabará topando com a armadilha fatal. Vote consciente, analise e não se deixe levar pelos “mi mi mis” da campanha. Não se esqueça daquela máxima antiga que diz: “muitos se fingem de morto para faturar o coveiro”. É o nosso país, é a nossa cultura eleitoreira. Tá na hora de mudar, mas é preciso ter consciência, discernimento e participação ativa ao votar e depois, para fazer a devidas e justas cobranças.
quinta-feira, 1 de outubro de 2020
APRENDIZES DO VIVER
Envelheci e nem percebi que, durante a dança do tempo, foram ocorrendo mutações em meu ser.
Então envelheci sorrateiro como aquele vinho esquecido no armário ou como aquelas fotos de tempos idos que aderiram a um tom amarelo, dando o alerta de que é inevitável segurar esse alazão que atravessa o espaço sempre imponente, sempre ávido em sua mensagem, sempre disposto a nos dizer que nada no Universo tem parada. É preciso ir em frente todos os dias, ainda que muitos fiquem questionando qual é o destino.
Ah! Mas eu nem lembro que cheguei a essa tal de “melhor idade” até porque, desde que me conheço por gente, sempre vivi a melhor idade, fosse na infância entre os folguedos e artimanhas de menino, fosse na adolescência preparando o coração para o amor e a construção de um novo tempo ou fosse na idade adulta onde se chega a estágios sérios, onde responsabilidade significa esforços dobrados e onde, é claro; a gente de fato e de direito sente um peso diferente, porque os músculos já não atendem como nos tempos do futebol ou das pedaladas numa bike. Tempo onde o cansaço surge do nada e a gente olha para o sofá e diz: “Velhinho, dá licença, mas preciso de um cochilo!” – Daí a gente acorda reanimado e segue pelo dia esquecendo-se da idade e indo fazer coisas que já não são tão apropriadas como na juventude. E daí? Eu me sinto jovem e por isto, vou pintar a parede, fazer uma pipa, limpar a calçada, passear com os cachorros e fazer um turismo pelas ruas ao meu redor. Mas, sobretudo, a idade que avança tem uma magia toda própria, porque através do tempo a gente aprendeu de tudo um pouco, a trancos e solavancos e se chega a esse estágio dotado de vivência, visão ampla a respeito da vida e de tudo o que nos cerca. Então a gente tenta passar um tanto disso aos jovens, mas eles, pelo menos esta geração de hoje, me parece que nasceram antes da gente e preferem pagar para ver o que acontece. Entrou em moda o “dá nada!” e depois que dá tudo a quem eles apelam? Desde sempre, desde as primeiras tribos, os mais velhos eram e continuam a ser os melhores conselheiros, porque velhice significa experiência e conhecimento e somente com essas duas características é que a gente pode se tornar velho, com espírito jovem e certos de que viver é muito mais do que uma dádiva, é o compromisso de vir, fazer e sentir a satisfação de ter cumprido, ainda que em parte, a sua missão.
E me permito “roubar” aqui um pouco da inspiração do Caetano Veloso que naquele tão distante 1979 escreveu:
“Eu vi o menino brincando/ Eu vi o tempo/ Brincando ao redor do caminho daquele menino. /Eu pus os meus pés no riacho/E acho que nunca os tirei...”
Que sejamos eternamente jovens em nossas mentes, que saibamos envelhecer e aceitar as mudanças e, sobretudo; que saibamos o tempo todo, interagir com a magnitude da vida, com a grandiosidade do planeta, com o infinito Universo e com a dádiva de ter vindo não para ser “mais um”, mas para ser um eterno aprendiz do viver.
- Pedro Brasil Júnior – 01/10/2020
terça-feira, 22 de setembro de 2020
CAMINHANDO SOBRE O TAPETE DAS FLORES DO IPÊ
Quando se é escritor, ainda que por presunção, a gente comete alguns erros que são, na verdade, motivados pela inspiração daquele momento mágico, tão único quanto ao instante em que se tira uma foto por ai.
O primeiro deles é a
gramática, que a gente pisoteia para desespero daqueles que a levam com uma
seriedade sem limites. Mas para este erro há sempre a possibilidade de todas as
devidas correções e ajustes. Já para o outro, não temos como dar uma mexidinha,
porque muitas vezes se fazem necessários. São as repetitividades de cenas ou
causos já relatados em outra crônica ou outro conto. Em sendo assim, é verdade
que num dia qualquer e bem distante eu já tenha falado sobre a maravilha dos Ipês
Amarelos cujos tapetes de suas flores enfeitam muitas calçadas pela cidade. Mas
outrora esses tapetes eram em maior quantidade e, portanto, muito mais
marcantes.
Hoje, último dia do inverno
desse 2020 que foi e segue sendo um ano gelado, porque todos nós entramos numa
fria digna de pinguins, deparo com um comentário curtinho de uma amiga de longa
data, a Célia Cesar que lá elogiou uma postagem
que fiz sobre o Dia da Árvore e onde ela diz : “ Não sei o que dizer...
Só sei que esta chegando a temporada dos Ipês e eu me lembro de você”.
E os Ipês Amarelos? Ah! Que
árvores majestosas que simbolizam a nossa terra, nos dão a sombra, o colorido,
mas não oferecem frutos. Pelo menos “não” na categoria do palpável e comestivo,
trazendo o sublime néctar do coração da terra. Mas seus frutos vão além-alma e
nos levam por uma espécie de jovialidade, um tipo de fonte da juventude que
banha nosso olhar com o amarelo das flores e o verde de suas folhas. E então,
esses “frutos” tão estranhos abrem o coração da gente e levam até ele a
essência mais pura que ajuda a gente a ter inspiração de escriba, força de
vontade de professor, carisma de apresentador de rádio ou televisão, preceitos
de pura fé em religiosos de todas as ordens e a pureza tão singela de toda e
qualquer criança que chega a este mundo apenas para viver. Eles chegam à
estação da vida sem falar nada, sem pensar nada, sem empunhar bandeiras
ideológicas, sem torcer para este ou aquele time, sem dar importância à raça, à
religião ou a preferência sexual dos outros. Simplesmente nascem e chegam como
a argila que se retira da barranca de um rio. O que os outros farão com ela é o
que importa. Como vão moldar as pequenas e inocentes almas é que influenciará
nos destinos do mundo.
Mas os Ipês Amarelos
seguirão florindo a cada Primavera, estendendo seu tapete vistoso aos
transeuntes, despertando olhares de paixão e escrevendo ali mesmo uma poesia
que fala de amor, de transformação e que inclui até gente carrancuda que reclama
que a arvore faz muita sujeira porque derruba aquelas flores todas e depois
aquelas folhas todas até ficar peladinha. Então está ai mais um segredo dos
Ipês que tanto amo. Aquelas árvores com nome masculino são dotadas de uma
feminilidade tão incrível que nos proporcionam desfiles de cores e depois
ensaios fotográficos de uma nudez que inspira acreditar que a alma da gente é
bem assim; primeiro espalha cores de todas as nuanças e mais tarde se desnuda
para nos mostrar a evolução. Mas claro; como não pensei nisso antes? Os Ipês
Amarelos são borboletas com raízes que incitam a gente a fazer como a lagarta.
Primeiro se rasteja, depois se mergulha num casulo e mais tarde se eclode em cores
para singrar os céus e provar o quanto a vida é bela e “maravilinda”, como
costuma dizer a amiga Célia a quem é claro, agradeço por ter sido hoje, motivadora
dessa rápida inspiração, mas lembrando que nada é por acaso e que a gente,
volta e meia dá um pulinho até o Altar para uma conversa com aquele “Cara” que é
extremamente radical, correto e grande protetor de cada passo que a gente dá
nesta caminhada por sobre os majestosos tapetes das flores do Ipê.
-Pedro Brasil Jr - 22/09/2020 -
quinta-feira, 3 de setembro de 2020
O RESGATE DA ENERGIA SOLAR QUASE AO FINAL DOS TEMPOS
Ainda nem haviam erigido a Torre Eifell em Paris quando, durante uma grande exposição um inventor e engenheiro americano então presente, demonstrava a sua magnífica invenção. Aliás; teria sido primordial para o destino da humanidade que poderia aqui chegar hoje sem essas ameaças monstruosas do aquecimento global.
Frank Shuman era o nome da cara que, durante aquele evento fez uma incrível demonstração do poder da energia solar construindo um pequeno motor que funcionava ao refletir a energia solar para caixas quadradas cheias de éter, que tem um ponto de ebulição mais baixo do que o da água, e era equipado internamente com tubulações pretas que por sua vez alimentavam um motor a vapor. Bem; ele fez uma mágica na ocasião quando, através do sistema serviu sorvetes para alguns presentes. Mais para frente, entre 1912 e 1913, Frank Shuman construiu em Maadi, Egito, o que pode ser considerada a primeira usina solar. A ideia era irrigar o deserto com águas do Rio Nilo através de um sistema motriz movido pela energia solar. Pena que durante a Primeira Guerra Mundial o complexo fora totalmente destruído.
De lá para cá tivemos a virada de um século onde o uso dos combustíveis fósseis ganhou o mundo e assim, a poluição envolveu o planeta e dele o fez a maior vítima interferindo em vários segmentos de sua naturalidade. Como resultado, o aquecimento global que hoje afeta por demais as calotas polares. E somemos a isso tudo os desmatamentos por todas as partes, o uso de carvão vegetal e de uma gama de outras práticas nocivas criadas pelo homem com intuito de gerar lucros.
Agora, mais de cem anos depois da proeza do pioneiro Shuman, o mundo volta a olhar a energia solar com a grande saída para novos tempos, sem poluição, com energia renovável entregue a todos nós pelo astro rei.
Oras; que humanidade é a nossa onde os interesses financeiros se sobrepõem à própria existência? Seguimos ainda assim e eu lembro a quem interessar possa que, no nosso país, o nordeste sempre padeceu pela falta de água e de atenção governamental. Quando D. Pedro II criou o projeto da Transposição do Rio São Francisco ele tinha a magnífica visão de que era possível resguardar a região toda e, através dela produzir muito através do trabalho da gente nordestina. Mas daí veio a Proclamação da República, o país ganhou outro rumo e o projeto da Transposição do São Francisco foi parar no fundo de algum baú.
Quando resgatado, décadas e mais décadas depois, não foi bem visto pelos interesses dos ditos abastados, aqueles que sempre desejaram e seguem desejando que os nordestinos se mandem para São Paulo, porque daí eles tem mão de obra barata, pouco importando se as favelas e a violência vão aumentar. Eles moram em palacetes e coberturas...
Meu caro Frank Shuman esteja você onde estiver saiba; seu pioneirismo chega ao reconhecimento mundial e é sim; a solução mais viável, não poluente e totalmente renovável. Mas saiba também meu caro, que todo aquele que tem uma ideia pratica, barata e sustentável ou é sumariamente abatido pelo poder da guerra ou então; passa a ser comunista. O que os ditos grandes querem sempre é o poder e o lucro. E salve o Sol.
- Pedro Brasil Júnior – 03/09/2020 –
sexta-feira, 7 de agosto de 2020
UM LIVRO ESQUECIDO
Um dia, acidentalmente, esqueci um livro no balcão de uma lanchonete. Voltei ao local, mas o exemplar já havia partido com alguém. Bem; apesar da tristeza pela perda acabei, de certo modo contente por saber que alguém iria ler aquela obra. Ou talvez nem fosse ler, porque muita gente sabe “catar” coisas perdidas ou esquecidas para jogar em algum canto.
Os anos passaram, vieram outros livros, outras histórias e aventuras e grandes nomes da literatura que me ajudaram a aprender muito mais. Depois alguém inventou um interessante projeto do livro esquecido propositalmente, de maneira a incentivar a leitura. De alguma maneira o projeto até funcionou e deve ainda estar conquistando alguns leitores por ai.
Esses dias, depois de tanto tempo, decidi dar uma volta pelo centro de Curitiba com a pura visão de um turista, fotografando alguns lugares tão comuns de minha passagem ao longo dos anos e eis que de repente me deparo com a cena: um verdadeiro livro esquecido no banco da praça.
Não era um livro de papel em brochura e com capa grossa, colorida, chamativo a qualquer passante. Era um livro vivo, com incontáveis páginas repletas de passagens maravilhosas, tristes, angustiantes, sofridas, saudosistas e por ai afora...
Lá estava naquele meio de tarde o homem sentado em sua solidão dividida com os pombos que habitam a praça e ficam à espreita de alguém que derrube do pacote algumas pipocas.
Ali estava com ele e em sua figura uma verdadeira obra, o livro de sua vida, esquecido naquele banco, mas sem permitir que alguém o apanhasse para esmiuçar suas verdades, suas crises, suas dores, seus malabarismos para quem sabe manter uma família e até mesmo as poucas alegrias que possa ter tido lá na juventude.
Um livro velho e esquecido no banco da praça, muito longe de uma campanha , tão distante de todos os olhares que atravessam a praça.
É a lente e os olhos que observam o instante e o captam para sempre. Lá ficou o livro esquecido enquanto a tarde se esvaia. Lá ficaram com ele seus segredos, seus sonhos, seus desejos e suas decepções. E lá fui eu adiante divagando sobre esses livros vivos que atravessam as ruas e as praças, empastados, empacotados, apressados, correndo contra o tempo para chegar a uma estação que nunca aparece.
Somos sim livros que se movem e cujo teor escrevemos um pouco todos os dias, mas o tempo que é implacável em sua passagem é quem dirá, a cada um de nós, se iremos ocupar aquele espaço especial na estante ou ficar esquecido para sempre num desses bancos frios que pouco se importa se a tarde se esvai, se a noite cai e se o amanhecer trará um sol resplandescente uma uma chuva torrente. (Pedro Brasil Jr – 07/08/2017)









