quarta-feira, 10 de março de 2021

GALO ROMEU, ESTUFA O PEITO E CANTA, PORQUE QUEM CANTA SEUS MALES ESPANTA!

Saudade imensa de ouvir ao amanhecer e em outras horas do dia aquele magistral canto de um galo. Cantar, para o Galo, coisa tão natural!...

Mas que tempos são esses em que muita gente mergulhou no tambor do absurdo?

Então alguém decide denunciar um galo. O Galo Romeu, propriedade de uma família lá pela Cidade Industrial. Polícia na porta, ocorrência inusitada. Eu fico imaginando o que deva ter passado pela cabeça dos policiais em serviço. Já imaginaram ter que “algemar” o galo e levar o bicho ao delegado? Coisa de doido, só pode.

Bem; os policiais ofertaram orientações à proprietária, e o galo Romeu segue cantando ora bolas!

Aqui na minha rua passa um desses carros que o cidadão vende ovo. No alto falante tem a gravação de um galo com coral de galinhas para chamar atenção. Propaganda é alma do negócio sempre. Já imaginou se alguém decide denunciar este pai de família que está trabalhando?

Não estamos mais vivendo num mundo natural. O canto do galo incomoda, o apito do trem incomoda, a música ali do vizinho incomoda, o casal homoafetivo que mora em frente incomoda, a família de afrodescendentes incomoda e até o cocô de um cachorro na grama da frente da casa de um cidadão incomoda pacas. Tudo incomoda os inconformados com a vida.

Já cantava o saudoso Gonzaguinha: “ Viver e não ter vergonha de ser feliz!”

Vive, ora pois, com o cantar do galo, o badalar de um sino, o apito do trem, a algazarra das crianças... porque um dia, tenha certeza disso, um dia o silêncio chegará sorrateiro para dividir a tua solidão com as paredes. Ah! Dirá você solenemente: Que saudade tenho do cantar do galo anunciando o palpitar da vida lá fora.

E tenho dito!!!!

 

(***) a foto do Galo Romeu “emprestei” ai da Internet.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2021

E A MOÇA CONTINUA UMA DELÍCIA

E vejam só como nós fazemos descobertas inusitadas a respeito da vida. Quando menino, piá bem pançudo mesmo, descobri que existia o governo, naquele caso, a geladeira GE que ocupava a cozinha da nossa casa. Ali no GOVERNO era tudo normal dentro das condições, ou seja; às vezes só trabalhava aquela garrafa de vidro com água e noutras vezes o lugar ficava entupido de coisas boas. Vai daí que este piá então pançudo descobriu numa das prateleiras do elefantão a existência de uma maravilhosa e convidativa lata de Leite Condensado Moça. Mas que moça deliciosa, no melhor dos bons sentidos, até porque naqueles tempos piá pançudo nem tinha noção que poderiam existir coisas mais atrativas. Deixa prá lá!...

Foi então que transformei (acho que eu era visionário) aquele abrir e fechar de porta do refrigerador num destes intervalos do SBT quando o locutor diz com voz entonada “de hora em hora o resultado da Tele Sena”. Mas ali, de hora em hora era uma mamadinha na lata. Que coisa mais gostosa, uma delícia, um verdadeiro manjar dos deuses de algum planeta todo açucarado.

Mas aconteceu que o conteúdo da lata terminou e foi parar todinho na minha vistosa pancinha. A energia daquele piá de bosta foi aos 220 volts num piscar de olhos ou seria num estalar de beiços?

Minha mãe, dona Maria Brasil nem desconfiava do assalto e eis que recebe uma daquelas comadres para um cafezinho da tarde. Então, topou com a lata vazia e me deu uma olhada de verdugo. Eu sabia que o doce da vida ia se transformar numa amargura com vergões de vara de marmelo. Apanhei mesmo e doeu no corpo e na alma.

Por longo período odiei aquela mulher da latinha. Na verdade odiei o leite condensado por anos. Hoje, passado pouco mais de meio século desde aquele incidente melado descubro que meu crime não foi assim tão grave. Viva fosse minha mãe diria a ela o quanto foi extremamente radical perante atitude tão infantil, daquelas artes que muitos guris mundo afora também praticaram com sublime inocência. Mas a mulher da latinha que tão bem resiste ao tempo, sendo hoje acho eu uma velha centenária, reservou seus requintes de vingança sobre toda uma nação. Hoje o Brasil é um país doce onde, por incrível que possa parecer, são homens com boa idade que adoram dar uma chupadinha na famosa latinha da moça que não envelhece. Pelo menos no rótulo.


- Pedro Brasil Júnior – 27/01/21

BOA NOITE


 

AINDA BEM QUE SOMOS FLEX

Primeiro soa o relógio digital do celular. Depois entra em ação o relógio biológico. Meu corpo se ressente e minha mente faz a pergunta que virou costume: Quais dores teremos para hoje?

Às vezes é o ciático, noutras ocasiões a coluna e tem aqueles dias em que dói a alma.  Vou ter que sair da cama mesmo?

E uma doce e sutil voz diz: “Vai lá e encara a vida de frente!”.

Então começa mais um dia com aquelas trinta e poucas mensagens de “bom dia” no celular. E que o dia seja bom mesmo!

O mundo lá fora vive de pedir um pouco de tudo. Emprego, vacina, água potável, comida, remédios... E o que incomodam a Deus com isto é coisa de doido. Se por onde vive a Grande Alma existir um Serviço de Atendimento ao Cliente pode ter certeza de que todas as linhas vivem ocupadas. Sorte a sua se de repente for atendido em vias assim diretas. O melhor conselho é procurar os “ouvidores” terrenos que tem sempre uma carta na manga e um coelho na cartola para operar um suposto milagre a módicos dez por cento da sua renda. Concorrem furtivamente com o Leão da Receita que suga com toda pompa parte do suor do seu trabalho e sem cerimônia alguma. 

Bem; o dia é de pedir – mais um, aliás – e ouço palmas no portão. Primeiro um rapaz magricela pedindo cinco ou dez centavos. O que você vai fazer com tanto dinheiro assim? Pergunto com um sorriso nos lábios. Ele me olha meio assustado, meio encabulado e fica mudo. Então peço que aguarde e logo lhe trago uma cédula de dois reais. Sua expressão muda e surge um sorriso leve. Ele abençoa a atitude e desaparece lá adiante, bem na entrada de um boteco. Lá foi enganar a fome com a essência da tal “marvada”. E olha; bendita seja a cana que nos dá o açúcar, o etanol e para muitos a ilusão de estômago forrado.

Pouco depois outras palmas. Agora um vendedor de alfajor que pertence a uma instituição com nome estranho. No peito, o “cara-crachá” feito a “pau-a-pique”.  Cada um se vira como pode...

Hora de abrir aquela gaveta farmacêutica e decidir entre um Torsilax ou um Dorflex. É meu amigo, depois dos cinquenta a gente vira “Flex” e pode ser movido a chá, café ou Coca-Cola afinal, “isso é que é!” e lá vou para os afazeres e compromissos do dia depois de uma noite de sono inquieto em função das certezas e das incertezas que nos cercam. O que sei é que lá longe existem mentes brilhantes dedicadas à vida e mentes maquiavélicas dedicadas à morte. É uma guerra sem fim, tanto aqui quanto em estágios da espiritualidade de onde, todos os dias nos enviam novos guerreiros para que possam por aqui evoluir e quem sabe; ajudar a melhorar este mundo infernal.

Já com minha quase inseparável máscara, porque às vezes tenho que voltar porque a esqueci, vou às ruas para resolver pequenas causas, caminhando em terreno minado por este vírus que segue matando muitos e que por uma legião segue sendo ignorado como perigo real. Volto rapidinho e me aconchego nesta cadeira diante do computador para esmiuçar as notícias e topar com as coisas mais estapafúrdias que este século tão tecnológico foi capaz de produzir na maioria das pessoas. Vou à janela e recebo uma golfada de vento. Um vento que me sequestra para a beira do mar e deixo a imaginação seguir aguçando todos os sentidos. O aroma marítimo, o pisar na areia, aquele molhar os pés na água e a visão das gaivotas em rasantes em meio às ondas para pescar. Tateio o rebuliço das ondas que quebram catando algumas conchinhas e me vem à boca um delicioso gosto de viver. Então volto à cadeira, às divagações e recordo que no final da noite passada estive nos confins de Moçambique, a terra do escritor Mia Couto, através de um dos seus livros que acabei de ler. É outra terra que integra o planeta, mas lá tem um bom tanto do que por aqui tanto urge. A esperança, o fim da fome, a água potável e a vontade de dançar na chuva para exaltar uma alegria tão pura e necessária. Então não devemos falar de bandeiras, mas falar de gente, ainda que em culturas diferentes, mas são pessoas que desejam o mínimo que esta grande casa oferece: simplesmente viver!

Diz o Mia Couto com uma visão muito profunda: “ Só existem duas Nações no mundo, a dos Vivos e a dos Mortos”! – Vivamos, ora, pois, ainda que com os Dorflex de cada dia.

 - Pedro Brasil Jr – 27/01/2021


terça-feira, 17 de novembro de 2020

BENDITA AO FRUTO NOS CAMINHOS DO INFERNO MASCULINO

Gostava dos tempos em que, encerrada a votação e eleitos os que tiveram mais votos, a vida seguia. Vitoriosos comemorando como se tivessem conquistado medalha de ouro nas olimpíadas. Perdedores em casa fazendo contas para tomar susto com os prejuízos.

E a vida seguia...

Hoje, com as redes sociais mudou tudo. Já na campanha somos bombardeados por candidatos que nunca vimos e nem sabíamos de suas existências. Eu mesmo recebi mais de 50 mensagens de gente se aventurando a uma cadeira na Câmara. Fora as solicitações de amizade no Face que passaram dos limites. Amizades relâmpago na tentativa de levar meu simples “votinho”. É quase como aquela garota bonitona que no começo da noite de sábado desfila sensual pela Rua XV procurando uma vítima para dela arrancar uma roupa, uma bijuteria, um perfume e até um jantar. Pensa que é balela? Havia uma em Curitiba lá nos anos 90 que era mestre na arte. Ela te olhava, sorria, rebolava e ia se chegando como gato safado. Daí o desavisado achava que estava abafando e que iria ter, de repente, uma noite de amor para extravasar todo e qualquer desejo.  Muitos Curitiba à fora caíram na rede da pescadora que, depois da compra de um agrado, o jantar ou lanche, achava um pretexto para se mandar. E assim, muitos Dons Juans ficaram chupando o dedo e depois foram para casa quebrar ladrilhos...

No caso da solicitação de amizade “relâmpago” a vantagem é que não tem encontro pessoal e nem presentinho. Depois, encerrado o pleito, aquele “amigo” nunca mais vai interagir com você. Pelo menos nos próximos quatro anos...

Que dizer então das lamúrias?Uma choradeira com potencial de cachoeira se instalou e não há lençol que dê conta para trazer uma conformidade mais rápida. Ela virá; com certeza que virá...

Agradecimentos pelo apoio, depoimentos de toda ordem pelas escolhas mal feitas pelo eleitorado e até desejos maquiavélicos para que os eleitos venham a quebrar a cara. Talvez assim, lá adiante, a derrota de hoje venha a ter o sabor de uma vitória cuja competição se traduz em sempre torcer contra para que dali se possa tirar algum proveito.

Alguns dos “mesmos” permanecem e isto contraria muita gente que, em análise de bate pronto acham que não fizeram nada e não mereciam a reeleição. Vai ser sempre assim!...

O que faltou foi mulher. Só uma ficará bendita ao fruto entre os homens. Mas ela é Fátima Sebastiana de Paula, tem nome de santa e, em assim sendo, acredito que vai saber conduzir seus passos por entre os caminhos do inferno masculino. No pleito em si, mulher fica lá fora. Continuamos a ter um clube do bolinha nos anais da política. Ah! Mas a prefeita eleita é mulher!

Pois então; fico cá divagando o que leva um contingente de eleitores a escolher uma prefeita e não abrir as portas da Câmara para  mais vereadoras. Tanta mulher capaz se candidatou e ficou de fora enquanto tantos homens que se acham capazes foram eleitos. 

Eles agradecem prontamente. Inclusive ao eleitorado feminino!


-Pedro Brasil Júnior – 17/11/2020


sexta-feira, 13 de novembro de 2020

DECIFRANDO CARTEIRAS

Acredito que o termo correto fosse “mobiliário escolar”, mas desde o primeiro dia na escola o nome era “carteira escolar” e a ordem era explícita: Não pode riscar a carteira!

Foi numa dessas carteiras que jamais consegui enfiar no bolso que dei os primeiros passos rumo ao conhecimento. Algumas dessas carteiras eram próprias para duplas de alunos, mas descobriram que em dois era mais fácil colar durante as provas. Então elas passaram a ser individuais e assim, aquele tampo onde não era permitido riscar era, ao longo do ano e devido aos três turnos escolares, transformado numa espécie de “rede social” de tempos idos.

Eu juro que gostaria de ter guardado a sete chaves uma dessas carteiras onde fiz bom uso e é claro; também deixei minhas marcas em interessantes rabiscos, porque ela continha ali um verdadeiro hieróglifo que só descendentes ao acaso de um tal de Champollion seriam capazes de decifrar assim como fez o famoso francês que decifrou a Pedra de Roseta.

Naquele tampo havia pedaços de tabuada e outras colas providenciais além é claro, de algumas declarações oriundas das primeiras descobertas a respeito do amor. Também havia desenhos variados que misturados ao longo do tempo, em alguns casos, lembravam códigos da passagem de vorazes aprendizes.

As carteiras enfileiradas na sala de aula muitas vezes lembravam os avanços dos peões num jogo de xadrez. Dependendo dos movimentos que alguns faziam no recinto a professora providencialmente os trocava de lugar. Assim, em várias carteiras ficaram as marcas de um bom numero de rebeldes e faladores, inclusive as desse escriba cuja caderneta de recado aos pais volta e meia era preenchida a fim de que, em casa, a gente ganhasse o devido corretivo. Por muito pouco escapei de ser um sósia do Mickey Mouse, mas se escapei das orelhas enormes do ratinho famoso, fiquei mais próximo do Gargamel, aquele caçador de Smurfs.

Carteiras escolares na verdade foram, cada uma há seu tempo, barquinhos sólidos nos quais a gente passou a navegar pelos mares do conhecimento. Muitos se tornaram eternos grumetes e outros chegaram a almirante ou comodoro. Como adoro lembrar aqueles tempos onde, de guarda-pó branco não éramos simples alunos; tínhamos um pouco de enfermeiros das palavras que nós mesmos feriamos com escrita ou pronuncia errada. Pena que naqueles tempos não nos permitiam saber uma verdade incontestável: é errando que se aprende. Eram tempos em que tínhamos a obrigação de apenas acertar, de aprender na marra, de copiar cem vezes no caderno frases do tipo “eu sou capaz de aprender”, numa espécie de manivela que faria o cérebro pegar no tranco.

Tudo passou – a escola, as carteiras, os amores platônicos, a cartilha, o livreto com a tabuada, os livros, os cadernos, a régua, a borracha, os lápis, canetas e os folguedos da hora do recreio, não sem antes provar uma deliciosa sopa ou chocolate quente e também mingau de aveia.

Viriam tempos depois outras carteiras – agora possíveis de carregar no bolso – a identidade, a habilitação, a do trabalho  e carteira apropriada para se carregar o que sempre é mais difícil conseguir: o dinheiro!


- Pedro Brasil Júnior – 13/11/20 -