quinta-feira, 5 de abril de 2012

SEXTA-FEIRA SANTA

JESUS CRUCIFICADO

(Meditação escrita por Gibran, numa Sexta-Feira Santa)
 Hoje, e em cada Sexta-Feira Santa, a humanidade acorda de seu sono profundo e, em pé ante as sombras dos séculos, olha, através das lágrimas, o Monte do Gólgota para ver Jesus crucificado em sua cruz... Mas assim que o sol se põe, a humanidade volta a ajoelhar-se perante os ídolos que se erguem sobre todos os montes.

Hoje, guiadas pela recordação, as almas dos cristãos dirigem-se de todos os cantos do mundo às cercanias de Jerusalém para contemplar uma sombra coroada de espinhos que estende os braços até o infinito e penetra através do véu da morte, nas profundidades da vida. Mas mal as cortinas da noite tenham descido sobre o palco do dia, os cristãos voltam a deitar-se à sombra do esquecimento, embalados pela ignorância e a indolência.
Hoje, e em cada Sexta-Feira Santa, os filósofos abandonam suas grutas escuras;os pensadores, seus ermitérios frios e os poetas, seus vales quiméricos para se reunirem numa alta montanha e escutar, calados e reverentes, um jovem dizer de seus assassinos:”Pai, perdoa-lhes porque não sabem o que fazem.” Mas mal a quietude tenha silenciado os ruídos do dia, os filósofos, pensadores e poetas voltam a envolver suas almas nas mortalhas de livros gastos.
As mulheres distraídas pelo brilho da vida, apaixonadas por jóias e vestidos, saem hoje de suas casas para ver a mulher dolorida, de pé em frente à cruz, como uma árvore flexível frente às tempestades do inverno.
Os jovens e as jovens que se deixam levar pela corrente da vida sem saber aonde vão, param hoje um instante para contemplar a Madalena lavando com suas lágrimas o sangue que mancha os pés do homem erguido entre a terra e o céu. Mas quando se cansam deste espetáculo, desviam os olhos e continuam seu caminho entre risadas.
Num dia como este, todos os anos, a humanidade acorda com o despertar da primavera e chora pelos sofrimentos de Cristo; mas depois, fecha os olhos e se entrega a um sono profundo.
A humanidade é uma mulher que se deleita em se lamentar sobre os heróis dos séculos. Se fosse homem, regozijar-se-ia pela sua grandeza e suas glórias.
A humanidade vê Jesus, o Nazareno, nascendo e vivendo como um pobre, ofendido como um fraco, crucificado como um criminoso, e chora-o e lamenta-o. E é tudo o que ela faz.
Há dezenove séculos, os homens adoram a fraqueza na pessoa de Jesus, conquanto Jesus fosse um forte. Mas eles não compreendem o sentido da verdadeira força.
Jesus não viveu como um covarde, e não morreu sofrendo e queixando-se. Viveu como um revolucionário, e foi crucificado como um rebelde, e morreu como um herói.
Não era Jesus um pássaro de asas partidas, mas uma tempestade violenta que quebra, com sua força, todas as asas tortas.
Jesus não veio do além do horizonte azul para fazer da dor o símbolo da vida, mas para fazer da vida o símbolo da verdade e da liberdade.
Jesus não receou seus perseguidores e não temeu seus inimigos e não sofreu nas mãos de seus executores, mas era livre à face de todos, audacioso para com a injustiça e a tirania.Quando via tumores pútrios, puncionava-os; quando encontrava hipocresia,esmagava-a.
Jesus não desceu do mundo da luz para destruir as nossas casas e, com suas pedras, construir conventos e ermitérios.
Ele não veio para tirar os homens fortes de suas ocupações e fazer deles monges e padres;mas veio para insuflar na atmosfera deste mundo uma alma nova e forte que destrói, até às fundações, os tronos elevados sobre os crânios, e que desmantela os palácios erguidos sobre os túmulos, e derruba os ídolos impostos aos espíritos fracos dos humildes.
Jesus não veio ensinar aos homens a elevar igrejas suntuosas ao lado de casebres miseráveis e de habitações frias e escuras, mas veio para fazer do coração do homem um templo e de sua alma um altar e de sua mente um sacerdote.
Eis o que Jesus, o Nazareno, fez, e eis os princípios que pregou e pelos quais se deixou voluntariamente crucificar.Se os homens fossem mais sábios, celebrariam a data de hoje com alegria e risos e canções de vitória e de triunfo.
E tu,gigante crucificado, que olhas do alto do Gólgota as caravanas dos séculos, que ouves o barulho dos povos, que compreendes os sonhos da eternidade, tu és, sobre tua cruz manchada de sangue, mais majestoso e mais soberbo que mil reis, com mil tronos e mil reinados.
E tu és, entre a agonia e a morte, mais poderoso e mais temível que mil generais, com mil exércitos e mil troféus.
Tu és , na tua melancolia, mais alegre que a primavera com suas flores. Tu és, nas tuas dores, mais sereno que os anjos em seu paraiso. Tu és, na mão dos carrascos, mais livre que a luz do sol.
A coroa de espinhos em tua cabeça é mais formosa e mais augusta que a coroa de Buhram, e o prego na palma de tua mão é mais imponente que o cetro de Muchtary. E as gotas de sangue que correm em teus pés são mais brilhantes que as jóias de Astarté.
Perdoa, pois, a esses fracos que se lamentam sobre ti, em vez de se lamentarem sobre si mesmos; perdoa-lhes porque não sabem que venceste a morte pela morte, e deste vida aos que estão nos túmulos.


-Gibran Khalil Gibran , do Livro “As mais Belas Páginas da Literatura Árabe” – Tradução de Mansour Challita-

segunda-feira, 26 de março de 2012

UMA LIÇÃO PARA POUCOS

“Aprendi através da experiência amarga a suprema lição: controlar minha ira e torná-la como o calor que é convertido em energia. Nossa ira controlada pode ser convertida numa força capaz de mover o mundo.”
                                                                                                      -Mahatma Gandhi-
Dizem que nem sempre determinadas questões tem a solução nas respostas e sim nas perguntas. Até porque, certas respostas não conseguem nos convencer sobre o que surge diante de nossos olhos, todos os dias, em todas as partes.
Por mais que pensemos na possibilidade de ficar parado, de se entregar a uma forma estática diante ao cansaço do dia a dia, lá fundo temos a plena convicção de que nada no Universo para e por mais que nos deitemos e nos entreguemos à profundidade do sono, nosso organismo segue ativo em todas as suas funções.
Mesmo assim, perante o sono restaurador e aos sonhos e suas nuanças, sabemos que em cada hemisfério a vida palpita com fervor e muitas vezes tais ações impressionam pela audácia de certas pessoas.
Evidente que na medida em que o tempo avança e o mundo evolui, pelo menos em algumas partes, em outras acabamos deparando com tradições antigas que ferem todos os conceitos a respeito da vida.
 Me pego então, depois de uma indisposição gastrointestinal, completamente enfraquecido, me sentindo como uma autêntica marionete. A vida é uma constante luta, a cada segundo, a cada palpitar do coração, a cada movimento das células e todas as nossas funções. O organismo se agita e lá dentro, poderosos exércitos se enfileiram para combater o inimigo. A ajuda externa sempre é benvinda, com medicação caseira ou não. O fato é que a recuperação, ainda que lenta, nos transporta à salutar vontade de viver, de seguir em frente, de realizar, de incentivar, de até mesmo participar de campanhas, de protestar sobre questões diversas mas sem perder a compostura ou ultrapassar limites.
Por que faço este tipo de referência? Porque de repente, neste regresso da dor, da pequena febre que produz suas miragens deparo com a assustadora cena de um homem em chamas. Não é cinema, não é fantasia! Realidade pura através de uma antiga tradição tibetana e talvez de outros povos mais próximos de lá que levam indivíduos a atear fogo no próprio corpo para protestar, como aconteceu na Índia em função da visita do presidente da China. Várias autoimolações de manifestantes já aconteceram e outras devem vir na sequência.

As respostas, sejam quais forem, nos levam a repensar o mundo em que vivemos.
Talvez por aqui, ainda que diante de tantas safadezas com o dinheiro público, onde alguns se apropriam dos recursos que poderiam melhorar a saúde, a segurança e a educação, estejamos, apesar de pesares, numa condição quase paradisíaca.
Lá, distante, o mundo parece um formigueiro em constante revolta, com protestos grotescos, suicidas que desejam se tornar mártires, poderosos que pisoteiam povos e outros que desejam ameaçar o mundo com suas possíveis bombas.
O mundo não para de crescer e quando nos lembramos que já somos sete bilhões de humanos chega a dar um frio na espinha, porque em toda parte, praticamente todos os dias, surgem loucos disparando suas armas contra inocentes, surgem malucos explodindo carros-bomba e de repente, surgem ativistas em chamas provocando um tipo de horror que, se á primeira vista nos assusta, em seguida nos incita a ter pena e a pedir a Deus que os perdoe.
Lembremos, em qualquer lugar do planeta, que Mahatma Gandhi libertou seu povo das mãos dos opressores sem pegar uma arma e, até onde sei, sem que alguém protestasse de maneira tão radical. O Grande Alma apenas sensibilizava o mundo com seus quase intermináveis jejuns. Pelo visto, sua magnífica lição foi para poucos!...

sexta-feira, 23 de março de 2012

A POESIA DE RUMI

TU E EU

“Feliz o momento em que, estando sentados no palácio,
tu e eu,
Com duas formas e dois rostos, mas uma só alma, tu e eu.
As cores do bosque e as vozes dos pássaros concederão a imortalidade.
No momento em que entramos no jardim, tu e eu!
As estrelas do céu virão nos olhar:
Nós lhes mostraremos a lua, tu e eu.
Tu e eu, liberados de nós mesmos, estaremos unidos no êxtase,
Felizes e sem vãs palavras, tu e eu.
Os pássaros do céu terão o coração devorado de inveja,
Nesse lugar onde riremos tão alegremente, tu e eu!
Grande maravilha é que tu e eu, enovelados no mesmo ninho,
Encontramo-nos nesse instante, um no Iraque, e o outro em Khorassan, tu e eu."
- Jalal ud-Din Rumi (1207-1273) -

quinta-feira, 8 de março de 2012

A POESIA DE IVONETE SANTOS

SER MULHER...


É lutar pela vida com destreza                                   
Sem contar muito com a sorte
É encantar com sua beleza
Ser frágil, mas parecer forte

É amar sem medida
Ser singela como a flor
É ter o dom de gerar a vida
Ser menos razão e mais amor

É fazer mágica com o tempo
Dar na tristeza um nó
É viver cada momento
Ser várias, mesmo sendo uma só.

Ivonete Santos – 2004

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

STREET ART

quero ver seu sorriso  
simples e confiante
renascendo
até nos muros da cidade
vivo, amigo
brotando de verdade
exuberante,
anunciando a paz !
Clarice Villac
09.02.2012

imagem : Vinchen – Street Art Utopia
http://www.vinchen.com/
http://www.streetartutopia.com/wp-content/uploads/2011/04/street_art_mars_3.jpeg

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

ALÉM DA OBRIGAÇÃO

Um homem foi chamado à praia para pintar um barco.
Trouxe tinta e pincéis e começou a pintar o barco de um vermelho brilhante, como fora contratado para fazer.
Enquanto pintava, notou que a tinta estava passando pelo fundo do barco.
Procurou e descobriu que a causa do vazamento era um buraco e o consertou.
Quando terminou a pintura, recebeu seu dinheiro e se foi.
No dia seguinte, o proprietário do barco procurou o pintor e lhe entregou um cheque de grande valor.
O pintor ficou surpreso e falou: “O senhor já me pagou pela pintura do barco.”
“Mas isto não é pelo trabalho de pintura”, falou o homem. “É por ter consertado o vazamento do barco.”
“Foi um serviço tão pequeno que não quis cobrar”, acrescentou o pintor. “Certamente o senhor não está me pagando uma quantia tão alta por algo tão insignificante!”
“Meu caro amigo, você não compreendeu”, disse o proprietário do barco. “Deixe-me contar-lhe o que aconteceu.
Quando pedi a você que pintasse o barco, esqueci de mencionar o vazamento.
Quando o barco secou, meus filhos o pegaram e saíram para uma pescaria.
Eu não estava em casa naquele momento.
Quando voltei e notei que haviam saído com o barco, fiquei desesperado, pois me lembrei que o barco tinha um furo.
Grandes foram meu alívio e minha alegria quando os vi retornando, sãos e salvos.
Então, examinei o barco e constatei que você o havia consertado. Percebe, agora, o que fez?
Salvou a vida de meus filhos!
Não tenho dinheiro suficiente para lhe pagar pela sua ‘pequena’ boa ação…"