domingo, 28 de março de 2010

A LANTERNA DO MARUJO

A LANTERNA DO MARUJO
- Pedro Brasil Jr -
A pintura da casa estava quase concluída e agora, começavam a surgir idéias na cabeça de dona Myrta. Enquanto observava o pintor deslizar o rolo na parede frontal, imaginava bem ali um banco onde poderia apreciar o movimento da rua nos finais de tarde. - Um banco daqueles brancos! – Pensava ela bem alto. - O que disse? – retrucou o pintor. - Nada! Estou conversando comigo. E foi assim que dias depois a Kombi do seu Aloisio era estacionada em frente ao portão e lá estava o belo banco todo em ferro e bem pintado a óleo. Dona Myrta não hesitou e todas as tardes ficava sentadinha observando a passagem das pessoas. As cinco em ponto, Marialva vinha do colégio já com a camisa meio aberta de maneira que suas formas podiam ser vistas de longe. A turma do barzinho do seu Quim dava uma pausa só pra ver a morena passar com os peitos em riste e a bundinha rebitada. Dona Myrta suspirava. - Ah! Os meus tempos da juventude. Eu também era boa, e como! Depois, a gurizada passava em arruaça, atirando pedras nos outdoors e xingando a mãe sabe-se lá de quem. Dona Myrta não gostava muito daquilo e logo vinha até a grade e ralhava. - Vá dormir velha fofoqueira!!! – Gritavam em côro. Faltavam dez para as seis e a hora da oração diária se aproximava. Dona Myrta levantou, olhou de um lado pro outro e ficou pensando no anoitecer que já chegava sorrateiro. A noite era pra ela algo sem sentido. Não podia ficar olhando a rua, a não ser em bisbilhotadas esporádicas pela cortina. Assistir a novela não era a sua grande atração e sozinha em casa, tinha para si apenas a companhia de Orfeu, um gato preto que foi chegando de mansinho e montou acampamento ali mesmo. E foi numa dessas espiadelas pela cortina que dona Myrta teve outra grande idéia. Colocar uma lanterna próxima ao banco e ficar ali, mesmo com as muriçocas incomodando os ouvidos. No dia seguinte cedo lá foi ela dar um giro pelas casas de ferragens. O que imaginara não conseguia encontrar. Achava lampiões de todos os tipos mas uma lanterna daquelas de antigos guarda-freios da Rede Ferroviária não tinha em lugar algum. Alguém sugeriu um ferro velho, onde ela passou o dia e nada! O proprietário já tava com o saco cheio de tanto ela perguntar sobre a lanterna. Ele mesmo, pra se livrar, sugeriu um antiquário. Dia seguinte cedo, lá estava dona Myrta no antiquário e de cara foi dizendo o que desejava e perguntando o preço. A atendente da loja abriu um sorriso e em seguida apresentou três modelos diferentes. Dona Myrta escolheu o exemplar que era todo banhado em cobre. Ficaria um luxo no seu pequeno jardim. Apesar do preço, ela não hesitou e antes de sair da loja, a moça aproveitou para contar uma daquelas estórias de fantasma. Disse que o dono da lanterna era um marinheiro e que desde que morreu, vivia atrás de quem ousasse se apoderar de sua flamejante peça. Disse inclusive que a lanterna só foi parar ali porque o antigo dono não agüentava mais as aparições do velho marujo. Dona Myrta não deu importância e ainda lascou : Não tenho medo de fantasmas, filha! Tenho medo mesmo é dos vivos! E lá estava a lanterna. Agora, com um pouco de querosene a chama iluminava o suficiente o local onde dona Myrta espreitava a vida alheia. Aconteceu no entanto, que os malandros da redondeza decidiram espalhar um boato só pra sacanear com dona Myrta. E foram dizendo aos quatro ventos que ali agora era um bordel refinado. Incontáveis clientes à procura dos prazeres da carne foram incomodar dona Myrta que a certa altura já estava com a vassoura em mãos. Uma noite, enquanto ela dava um cochilo ali no banco, alguém a tirou dos sonhos batendo palmas. Ela olhou de rabo de olho e viu que só podia ser mais um daqueles idiotas que haviam se convencido de que ela agora era uma dona de bordel. O homem insistiu. - O que o senhor deseja? - Minha lanterna! Ela olhou bem no sujeito e foi gritando: - Esta lanterna é minha! Comprei com o meu dinheiro e vê se não enche! O sujeito olhou bem pra ela e disse: - Volto pra pegar o que é meu! Volto sim!... À noite, antes de dormir, dona Myrta sempre rezava. Havia gente maldosa que dizia que ela pedia pra dormir com tantos santos que acreditavam que todas as noites sua cama quebrava por causa do peso. Precavida, tratou de fazer umas orações fortes e garrou no sono. No silêncio da madrugada, acordou com um barulho vindo do quintal. Espiou pela cortina e viu o mesmo sujeito que desejava sua lanterna. Receosa, gritou, dizendo que ia pegar uma arma. O indivíduo não deu a mínima e foi pulando o portão com a lanterna numa das mãos. Dona Myrta abriu a porta e foi até o portão. Ficou olhando o sujeito caminhar tranqüilo, como se não tivesse cometido nenhum delito. Gritou, esbravejou e acordou a vizinhança. Todos foram à rua ver o que acontecia. -Ele pegou minha lanterna! É ladrão! Os mais afoitos empreenderam uma corrida para pegar o larápio que continuava a caminhar lentamente e agora, com a lanterna acesa. Num instante, ao se aproximarem para pegá-lo, o homem empreendeu vôo e na escuridão passou a brilhar com as chamas da lanterna e desapareceu distante. Contam que ninguém ficou por ali para discutir o fato. O que se sabe, é que o velho marujo havia realmente voltado para pegar sua lanterna e que dona Myrta, naquela noite, depois do ocorrido, levou quase uma hora para conseguir entrar em casa. Dizem as más línguas que ela seguiu para dentro passo a passo, devidamente calculado, dando entender que, mesmo sem transparecer medo pelo que presenciara, ela havia feito ali mesmo na rua, todas as suas necessidades fisiológicas. Curitiba - 20.04.05
- Publicado originalmente nos Anjos de Prata -

quinta-feira, 25 de março de 2010

O VÔO DA ZENAIDE

Grande amiga Zenaide: Você sempre nos surpreendendo com suas poesias oportunas. Nem pedi licença desta vez afinal; você merece muito do que isto. Muita Paz e muita Luz pra você sempre! VIDA Zenaide Giovinazzo Amo a Vida. Muito ela me oferece, aceito-a de braços abertos, ávida, sorvendo até a última gota! E tudo pode vir através de um sorriso, da brisa, de uma música, uma poesia, o canto de um pássaro, uma flor, o cheiro da terra molhada. Deixo entrar, abro meu coração para melhor receber as dádivas do céu. Deixo entrar a música dos anjos, deixo entrar o amor de quem me ama. Amo a Vida, e as mudanças que ela traz dia após dia... Sou feliz, amante da Vida, amante do belo, amante do amor. Sou feliz, sou infinitamente feliz em ser livre, em voar... SP/Maio/2008

sábado, 27 de fevereiro de 2010

DIA INTERNACIONAL DA MULHER

Houve um tempo em que a mulher era simplesmente a mulher. Houve um tempo em que a mulher queria ser alguém... As vozes de toda uma época teimavam em lhes tolher vontades. As mulheres esperaram pacientes os momentos oportunos. Não sem antes ter sentido o amargo gosto da discriminação, da indiferença e de uma superioridade masculina que deixava dúvidas. Os tempos mudaram e com estas mudanças, as mulheres foram ganhando espaços, evoluindo, ocupando posições importantes, decidindo não mais os próprios destinos, mas ajudando a decidir o destino de todos. As mulheres foram à luta, nas guerras, no trabalho, na política... Hoje, as mulheres ajudam a construir bandeiras com a força do trabalho, do conhecimento e de uma vontade imensa de ver um mundo melhor, mais justo, muito mais humano. Dia Internacional da Mulher todos são. Porque aqui, ali e acolá, as mulheres se fazem presentes ajudando a construir um mundo melhor e o que é mais importante: continuam a dar à Luz como sempre o fizeram e continuam a semear o amor em meio às tantas florestas de ódio que ao longo da história nasceram no coração dos homens. Que as mulheres prossigam construindo bandeiras e dando grandes exemplos de humanismo e solidariedade. (P.B.J)

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

ADORMECER SORRINDO

"Quero encontrar algo nesse mundo que me traga, a cada noite, a dádiva de um cansaço bom. Que me permita olhar para as horas vividas com uma clara convicção de que valeu a pena vivê-las. Que me conduza ao sono sereno que nasce depois dos desafios que o coração compra. Que me convide a desejar um novo dia, certa de que haverá um motivo para o qual levantar. E por sabê-lo, por lembrá-lo, eu possa experimentar a paz de adormecer sorrindo”. -Ana Jácomo-

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

UMA PALAVRA QUE DIGA TUDO

Eu vou escrever pra você!... Não importa quem você é e nem onde esteja. Minhas palavras vão viajar ao acaso... Talvez eu coloque minha mensagem dentro de uma garrafa e a solte aos encargos do oceano. Que ela então percorra livre e solta os sete mares até que um dia você, casualmente a encontre estacionada nas areias de uma praia qualquer. Ali será o grande e único paraíso. Nem que seja por apenas um pequeno e significativo momento. Mas será por certo um instante mágico e inesquecível. Eu não poderei ver a tua surpresa e nem o encanto dos teus olhos quando ler o que escrevo agora. Mas meu coração estará por ai, palpitando e sentindo de certa forma esse momento que acabo de criar só para fugir a todas as convenções. Eu espero que minhas palavras possam dizer a você qualquer coisa que te faça parar no tempo. Qualquer coisa que te permita fazer o mundo parar. Qualquer coisa que te permita fazer com que o universo todo pare por uma simples fração de segundo. E será justamente neste momento único que minha alma chegará à tua e ainda que possa parecer um nada dentro do tempo, tenho certeza de que será uma inesquecível eternidade. Você se perguntará que motivos levaram alguém a escrever algo sem nexo, um tanto complexo e deixar navegar ao léu das ondas. Você poderá rir ou chorar. Dependerá justamente do momento em que acontecer este encontro. Mas eu quero que você saiba que não sou louco e nem tampouco o único a ter feito isto. Muitas garrafas ainda circulam pelos mares carregando suas mensagens. E muitas dessas mensagens também buscam um olhar verdadeiro, um toque preciso, uma leitura silenciosa e profunda, um sorriso ou uma lágrima e, acima de tudo, uma alma capaz de compreender que aquelas palavras são as asas de um viajante meio pássaro, meio anjo na desenfreada busca por alguém que, de alguma maneira possa entender que em algum lugar do universo habita um coração ansioso por uma palavra que diga tudo, por um sorriso que abra os portais dos céus, por um abraço que acolha toda a essência e por um olhar que transcenda o infinito e que assim, possa também bater suas asas numa parceria em que a distância deixará de ser empecilho, que para entrelaçar as mãos bastará apenas um toque numa estrela e que o encontro seja uma grande explosão de cores formando uma nova galáxia que, por incrível que pareça, cabe agora, todinha em minha mensagem dentro dessa garrafa com destino incerto, mas que eu tenho certeza, chegará às tuas mãos quando a luz da estrela mais distante tocar, sem que você perceba, a tua face meiga durante um desses passeios numa praia qualquer... Porque ali será o único e grande paraíso!
(PEDRO BRASIL JUNIOR)
-São José dos Pinhais – 12/12/2009 – 01h47min-
*Publicado originalmente na Usina de Letras

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

SÓ UM LEMBRETE DO QUINTANA

A vida é o dever que nós trouxemos para fazer em casa. Quando se vê, já são seis horas! Quando se vê, já é sexta-feira... Quando se vê, já terminou o ano... Quando se vê, perdemos o amor da nossa vida. Quando se vê, já passaram-se 50 anos! Agora é tarde demais para ser reprovado. Se me fosse dado, um dia, outra oportunidade, eu nem olhava o relógio. Seguiria sempre em frente e iria jogando, pelo caminho, a casca dourada e inútil das horas. Desta forma, eu digo: Não deixe de fazer algo que gosta, devido à falta de tempo, pois a única falta que terá, será desse tempo que infelizmente não voltará mais.
(Mário Quintana)