terça-feira, 4 de fevereiro de 2020

MALDITO CALENDÁRIO

Chegou sorrateiro em frente ao portão e sem fazer cerimônias foi entrando com passos devidamente calculados. Porta entreaberta, empurrou cuidadosamente para não quebrar o silêncio, mas as dobradiças cansadas deram aquela famosa chiada e o sujeito que dormia acordou de sobressalto. -Quem está ai? -Sou eu! -Eu quem? -Fevereiro meu camarada! -Fevereiro? Mas já é a tua vez de comandar a orquestra dos dias? - Claro meu brother; então achava você que ia se eternizar neste cargo? - Bem; até que eu ansiava por merecidas férias, mas passou tão depressa... - Você é que pensa! Seus dias se arrastaram feito correntes em castelo mal assombrado. Aliás; teus dias foram uma assombração completa. -Não exagera! Tive dias ensolarados, gente curtindo a praia, pessoas comemorando o início do novo ano regados a champanhe e espumantes e... -Chega! Chega! Chega! - Você não está batendo bem da cachola meu nobre Janeiro. Veja lá; teus dias foram repletos de tragédias. Aguaceiro sem fim carregando tudo. E gente que já não tinha nada acabou perdendo tudo o que achava que tinha. Sem contar com esse vírus ai, o tal de Corona que pegou carona no lombo dos burros que conduziram esses teus dias insólitos. - Ah! Mas essas coisas são tão comuns ao longo de cada mês... - Pode até ser, mas todo ano quando você assume a orquestra é um desastre só. Aliás; desastre sempre anunciado. Eu não vou te culpar ferrenhamente, porque nós sabemos que as pessoas é que criam esses problemas, em sua maioria, é bem verdade. -Tá vendo? Você tem que considerar que não foi tão ruim assim. - 
Pois é meu caro; mas a orquestra sob meu comando é sempre mais agradável a este povo sofrido. Aliás, esse povo sofre por 13 meses a cada ano. - Que é isso? Inventou um mês a mais? -Lógico meu caro. Os bancos, as escolas particulares, os serviços em geral já inventaram o décimo terceiro mês faz muito tempo. É a maneira sutil de enganar uns aos outros. Em sendo assim, o povo sofre treze meses e se diverte em apenas um, que evidentemente é o que eu comando no melhor estilo desses Djs mundão afora. -Ah! Tá bom então. Mas cuidado com essa referência ao treze. Não é um número bem visto, tanto no folclore popular quando nas lides políticas. Qualquer coisa ligada ao treze pode te deixar em maus lençóis... -Que se dane! Quem acredita em número do azar, gato preto e milagre de igreja precisa de tratamento psiquiátrico. A realidade é outra! -E qual é a tua realidade? - Oras! Eu sou fevereiro, o mês do elixir da vida. -Tá de brincadeira? Como assim? - Veja lá; quem nasceu no dia 29 sob meu comando, só faz aniversário a cada quatro anos. Quer mais vantagem do que esta? Se todos os demais aniversariam todos os anos, o sortudo do dia 29 do meu mês sempre vai estar mais novo, mais robusto, cheio de energia para curtir a minha festa maior, o carnaval, com o Rei Momo, a Rainha, o Trio Elétrico, os Blocos, as Escolas de Samba e muito love, só love, só love. E além disso, quando novembro fizer gargarejo para seu discurso de posse, terá de minha parte a entrega de todos aqueles rebentos originários das loucuras mais tesudas de norte a sul. - Ôpa! Menos ai. Tem camisinha, pílula, pílula do dia seguinte, Diu... - Quá, quá, quá... Tá por fora mermão. Na hora da forrupa, com uns tragos nas ideias ou coisas mais fortes o povo tá nem ai pra essas coisas e menos ainda para aquelas doenças venéreas. O povo quer é ir ao exagero afinal de contas, é carnaval, a festa da carne onde até vegano cai na folia. -Mas você é bem filho da puta, né? - Ops! Pega leve primo de calendário. Eu não promovo nada disso. Eu sou o mês e os homens é que fazem o festerê. Tô isento de toda e qualquer culpa. E também não tenho aquela aguaceira toda que tudo e a todos carrega como cabeça de água em rio. Ah! E todo mundo tem ainda um motivo para celebrar comigo. Sendo eu mais curtinho, o pessoal recebe o salário mais cedo, gasta mais cedo também, mas é ai que entra aquilo que te disse; que sou o mês da celebração e da alegria. Os outros doze meses é de luta, sofrimento, impostos, empréstimos, filas na lotérica, no banco, no posto de saúde, na vaga de emprego e por ai vai. O resto do ano é tempo de fila, inclusive de fila-boia, porque a coisa tá de um jeito... - Tá bom meu primo fevereiro! Assuma o cargo, coloque sua merecida faixa e tenha dias de um governo sereno, embora agitado pelas festas. Eu me recolho entristecido pelas causas das intempéries, mas a Natureza é justa e quando se revolta... sai de baixo! - Valeu primão Janeiro! Bom descanso e regresse enérgico naquele dia primeiro quando deixam a noite feito um dia e a cabeça feito um pião pelos efeitos etílicos. E tudo isto meu caro, porque querendo ou não, a vida é, foi e sempre será ditada por este maldito calendário. 
 (PBJ- Curitiba - 03/02/2020)

terça-feira, 11 de junho de 2019

POR UMA ARMA ZEN

Zen é o nome japonês da tradição Chan que surgiu por volta do século VII. O Zen costuma ser associado ao Budismo do ramo Mahayana. Também é costume popular por nossas bandas dizer que "estou Zen" ou seja; que se está em perfeita harmonia com a vida. Mas o Zen também já foi "puxado" para o lado cômico da nossa existência no que diz respeito ao universo das piadas como segue: Dois monges estavam meditando, mas meditaram tanto que ficaram tão Zen que atravessaram um coador de café. Qual é o nome do filme? Os Zen-filtrados. E eu cá comigo fiquei pensando na hipótese de que poderia existir uma Arma Zen que fosse capaz de promover a paz e a união entre os homens. Talvez uma oração coletiva na mesma hora em todo o mundo. Quem sabe num dado momento todas as pessoas se abraçando em todos os pontos. 

Ou ainda, todo mundo fazendo uma interessante viagem interior para descobrir quem somos na verdade. Em matéria, esse corpo físico que a tantos permite proezas e que a outro tanto castiga com suas dores e defeitos. Em termos de essência... Eis aqui o ponto mais primordial entre todos. É na essência que se resguardam os segredos que revelam quem somos, como pensamos, como observamos e julgamos os semelhantes. Reflexões para um raro instante. Dedique 60 segundos para se buscar e tentar corrigir alguma coisa. Talvez aquele "pontinho preto" que incomoda todo o seu quadro branco. Já é um bom começo. Mas esta jornada é longa e exige dedicação, determinação e muita oração também. Nossa ARMA ZEN é muito mais poderosa que os canhões de antigamente ou dos mísseis do "atualmente". Talvez mais poderosa do que as ameaçadoras bombas que prometem destruir o planeta. Nossa ARMA ZEN vive na essência, nas profundezas do nosso ser e só precisa de momentos de tranquilidade e silêncio para que possa ser utilizada em benefício da Paz. Maneje sua ARMA ZEN todos os dias. Não precisa muita prática, só boa vontade. Não precisa "porte" porque a única ameaça de que é capaz, é transformar as pessoas para melhor. E o mundo precisa disso urgentemente! 
-Pedro Brasil Jr – 07/05/2019 -

terça-feira, 19 de maio de 2015

A POESIA DE CLAUDIA LEMOS

Ponteiros ao Vento  

           Claudia Lemos 

 ...quintais encantados
 carregam a realidade
 para o longe do tempo

 o céu da infância
 a janela mágica
 o chão de terra 

 anéis de barbante
sorrisos no muro
 pistas de capim 

chão de giz 
escrituras de tijolos 
os olhos no fim da rua

o quitandeiro na porta
chamando sabores 
o barulho eterno da serralheria

topadas em pedras 
de amarelinhas 
bandeirinha, lateiro-vivo 

os gritos escada abaixo
o chinelo mandão 
bicicleta sem freio

jogos de tabuleiro
dominós paternos
bingos maternos

liberdade da pipa 
carinho com a bola 
gudes marcadas 

 o pião do tempo
 furando calendários

quarta-feira, 13 de maio de 2015

A POESIA DE MANUEL BANDEIRA


O ATLÂNTICO A TUDO RESGUARDA

O Atlântico resguarda em suas profundezas a dor e os gritos daqueles que foram caçados no coração da Mãe África. Os que suportaram a dor, a fome, a sede, as correntes, os açoites e chegaram por aqui, ainda tiveram que suportar todo tipo de humilhação até que seus descendentes pudessem um dia se tornar PESSOAS. Outrora animais negros, muitos se libertaram antes do destino, pela doença, pelo rancor, pela incompreensão enfim... A liberdade dos negros escravos exigiu deles uma jornada de luta cuja única arma era a esperança aliada à paciência, a dor, a saudade e o rancor que nenhum outro homem já pode sentir em seu coração. Ser preto, negro ou crioulo, como queiram; sempre foi um rótulo imposto pelos poderosos de todas as épocas.
Hoje, 127 anos após a libertação dos escravos no Brasil, ainda temos que deparar com tanta desigualdade, com o preconceito absurdo que nos leva a crer que apesar de todos os avanços, ainda existem pessoas paradas no tempo, medíocres; tão medíocres quanto aquelas do tempo por onde ficaram. O Atlântico ainda resguarda o eco dos gritos que partiam dos navios negreiros. Ainda resguarda a liberdade dos que foram atirados aos tubarões. Ainda resguarda em suas águas uma ponte invisível que no passado, mesmo ao preço da dor, interligou a força dos africanos perante a fraqueza dos senhores de então. A força negra da África construiu o novo mundo e nos legou negros talentosos em todos os segmentos da atividade humana. HUMANOS! É isto que somos todos.Sejamos brancos ou negros. Liberdade ainda é necessária! Que os preconceituosos possam encontrar a liberdade de que precisam e que é a mais difícil de ser alcançada. Aquela que liberta de seus corações o monstro de uma supremacia absurda. Eles também tem duas pernas, dois braços, dois olhos, dois ouvidos, um coração e infelizmente; um cérebro atrofiado. Eles só não tem a pele negra, mas quem garante que seus corações não sejam negros como um carvão? 
O Atlântico a tudo resguarda!...