quarta-feira, 14 de julho de 2010
sexta-feira, 11 de junho de 2010
PARA UMA CERTA SOFIA DE MELO
As pessoas sensíveis
Sofia de Melo Breyner Andresen
(Porto, 6 de Novembro de 1919 — Lisboa, 2 de Julho de 2004)
As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas
O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Aquela roupa do seu corpo
Que depois da chuva secou sobre o corpo
Porque não tinham outra
Porque cheira a pobre e cheira
A roupa
Que depois do suor não foi lavada
Porque não tinham outra
"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
assim nos foi imposto e não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão"
Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito
Perdoai-lhes Senhor
Porque eles sabem o que fazem
Livro Sexto – 1962 –Lisboa – Livraria Morais Editora
Sofia de Melo fez-se poeta já na sua infância, quando, tendo apenas três anos, a ela foi ensinada "A Nau Catrineta" de Armando Ferreira: -
"Havia em minha casa uma criada, chamada Laura, de quem eu gostava muito. Era uma mulher jovem, loira, muito bonita. A Laura ensinou-me a "Nau Catrineta" porque havia um primo meu mais velho a quem tinham feito aprender um poema para dizer no Natal e ela não quis que eu ficasse atrás… Fui um fenómeno, a recitar a "Nau Catrineta", toda. Mas há mais encontros, encontr
os fundamentais com a poesia: a recitação da "Magnífica", nas noites de trovoada, por exemplo. Quando éramos um pouco mais velhos, tínhamos uma governanta que nessas noites queimava alecrim, acendia uma vela e rezava. Era um ambiente misto de religião e magia… E de certa forma nessas noites de temporal nasceram muitas coisas. Inclusivamente, uma certa preocupação social e humana ou a minha primeira consciência da dureza da vida dos outros, porque essa governanta dizia: «Agora andam os pescadores no mar, vamos rezar para que eles cheguem a terra» (…)."
sábado, 29 de maio de 2010
LIRA DOS SETENTA
“...mas agora, nesta primeira grande ruptura de minha maturidade, sinto que os limites de minha arte e de minha vida se aprofundam imensamente com essas lembranças. Como se fossem reconstruídas em pensamento”
(Justine – 1º vol de “O Quarteto de Alexandria” – Laurence Durrel).
LIRA DOS SETENTA
-Rita de Cássia de Amorim Andrade-
Ao longo desta vida
as velhas lembranças são como
velhas histórias contadas
por velhos sábios, tão distantes
de mim estão!
Das mais recentes,
são as rupturas as que mais
me comovem.
A morte de ALONSO:
às vezes, a mente se confunde,
e penso que ele estará de volta
a qualquer momento.
Depois, a mente se aclara
e o sonho se desfaz.
E a ruptura dos vivos?
Quem se foi sem dar adeus?
Alguém, talvez, que teve medo de dizer
“adeus”?
Existe alguém que se esqueceu de
dizer adeus?
Todos os amigos estão por perto?
Não falta ninguém?
Nem sempre a ausência de
um amigo significa ausência
de amizade.
Digo “amigos”, porque
são partes de mim própria.
São células, quase sempre
sadias, que se desprendem
do meu corpo
pela força do destino.
Retornar-se-iam?
Não sei, mas são pedaços de
minha história.
São os de corpo e espírito,
Vivos ou mortos.
E os parentes
próximos e menos próximos?
Estão correndo pelo meu
sangue, não têm como escapar,
não os deixo escapar.
É também difícil deixar
escapar os amigos não consanguíneos.
Tenho um prana rente a minha
pele, que teima em mantê-los
dentro dessa atmosfera individual,
como os corpos terrestres,
cuja camada atmosférica
não nos deixa cair no vazio
do espaço.
Assim, segue o meu tempo de
humana, até quando,
não sei.
Como esses 70 anos
são de uma vida bem
vivida,
tenho que celebrar com
champanhe e
velas perfumadas.
Levantar a taça aos que estão
próximos e aos que estão
distantes.
Teresina, 02 de dezembro de 2009
Ao longo desta vida
as velhas lembranças são como
velhas histórias contadas
por velhos sábios, tão distantes
de mim estão!
Das mais recentes,
são as rupturas as que mais
me comovem.
A morte de ALONSO:
às vezes, a mente se confunde,
e penso que ele estará de volta
a qualquer momento.
Depois, a mente se aclara
e o sonho se desfaz.
E a ruptura dos vivos?
Quem se foi sem dar adeus?
Alguém, talvez, que teve medo de dizer
“adeus”?
Existe alguém que se esqueceu de
dizer adeus?
Todos os amigos estão por perto?
Não falta ninguém?
Nem sempre a ausência de
um amigo significa ausência
de amizade.
Digo “amigos”, porque
são partes de mim própria.
São células, quase sempre
sadias, que se desprendem
do meu corpo
pela força do destino.
Retornar-se-iam?
Não sei, mas são pedaços de
minha história.
São os de corpo e espírito,
Vivos ou mortos.
E os parentes
próximos e menos próximos?
Estão correndo pelo meu
sangue, não têm como escapar,
não os deixo escapar.
É também difícil deixar
escapar os amigos não consanguíneos.
Tenho um prana rente a minha
pele, que teima em mantê-los
dentro dessa atmosfera individual,
como os corpos terrestres,
cuja camada atmosférica
não nos deixa cair no vazio
do espaço.
Assim, segue o meu tempo de
humana, até quando,
não sei.
Como esses 70 anos
são de uma vida bem
vivida,
tenho que celebrar com
champanhe e
velas perfumadas.
Levantar a taça aos que estão
próximos e aos que estão
distantes.
Teresina, 02 de dezembro de 2009 quarta-feira, 26 de maio de 2010
QUANDO ENVELHECER VOU USAR PÚRPURA
AVISO
- Jenny Joseph -
* Escritora inglesa nascida em Birminghan em 07 de maio de 1932
Quando envelhecer vou usar púrpura com
chapéu vermelho, que não combina
nem fica bem em mim.
Vou gastar a pensão em uísque e luvas de verão
e sandálias de cetim - e dizer que não temos
dinheiro para a manteiga.
Vou sentar na calçada quando me cansar e devorar
as ofertas do supermercado, tocar as campainhas
e passar a bengala nas grades das praças
e compensar toda a sobriedade da
minha juventude.
Vou andar na chuva de chinelos, apanhar flores
no jardim dos outros e aprender a cuspir.
A gente pode usar camisas horríveis e engordar,
comer um quilo de salsichas de uma vez
ou só pão com picles a semana inteira
e juntar canetas e lápis e bolachas de
cerveja e coisas em caixinhas.
Mas agora temos que usar roupas que nos
deixem secos, pagar aluguel, não dizer
palavrão na rua e ser bom exemplo
para as crianças.
Temos de ler o jornal e convidar
amigos para jantar.
Mas quem sabe eu devia treinar um pouco agora?
Assim os outros não vão ficar chocados demais
quando de repente eu for velha e usar
vestido púrpura.
A VELOCIDADE DE ALMA
Um viajante, ansioso para chegar logo ao seu destino no coração da África, pagava um salário extra para que os seus carregadores nativos andassem mais rápido. Durante vários dias, os carregadores apressaram o passo. Certa tarde, porém, todos sentaram-se no chão e depositaram seus fardos, recusando-se a continuar. Por mais dinheiro que lhes fosse oferecido, os nativos não se moviam. Quando, finalmente, o viajante pediu uma razão para aquele comportamento, obteve a seguinte resposta: "Andamos muito depressa e já não sabemos mais o que estamos fazendo. Agora precisamos esperar até que nossas almas nos alcancem".
Nota: Pura sim, a alma que legou o texto. Pena que a autoria esteja completamente desconhecida. Mas se você porventura souber quem foi o autor, por favor, me informe.
sábado, 24 de abril de 2010
DESEJOS
DESEJOS
-Pedro Brasil Jr -
Os instantes estão cada vez mais distantes
Inquietantes esses ponteiros do relógio
De sobressalto recordo que o tempo existe!
O silêncio é pura intensidade
E com ele toda minha verdade aflora
Como talos de flor-de-ipê,
Que silenciosas nascem e a gente nem vê
A noite brilha lá fora com seu lençol de estrelas
E minha memória recupera instantes de outrora
Doce aurora com o Sol imponente
Afinal, cada dia tem seu próprio esplendor
Minha dor eram dores
Que de um plural as tornei tão singular
E eis-me aqui, agora, ouvindo meu próprio coração
Tento lembrar de você, que jamais conheci
Estranho?
Estranho sou eu, invadindo o sonho teu
Não importa! De todo modo, abri a porta do tempo
E com o vento me fui ao teu encontro
Em algum horizonte perdido
Seus lençóis azuis amarrotados
Suas vestes lilás de qualquer jeito
A profundidade do teu sono perfeito
Estou aqui!
E quem será você?
Minha fabulosa estrela radiante
Minha criação estonteante
Decido parar o tempo
Porque nesse instante eu posso.
Neste momento eu quero
Meu desejo é tão simples
Tão puro e cristalino
Quase igual a água do meu riacho
Olho a maciez da tua pele
Um convite para minha aventura
E vejo teus poros arrepiar
Um toque sutil e maravilhoso
Um aroma no ar
Teu perfume gostoso
A razão se confunde com o sonho
Ela sabe a que me proponho
E o tempo volta a palpitar
Deixo-me pronto à entrega
E me envolvo em todo o teu ser
Com pinceladas de um grande artista
Cada milímetro de você
Passando por minhas mãos
Cada segundo do que sou
Se envolvendo na tua magia
Instantes são assim
Figuras em silhuetas
Sugerindo apenas o que se quer
Momentos são assim também
Irrigando a alma com desejos que convem
E minha vida segue ao léu
Com teus olhos com um céu
Com teu corpo feito planeta
Com meu desejo impresso em meus gametas.
Quem é mesmo você?
A noite brilha lá fora com seu lençol de estrelas
E minha memória recupera instantes de outrora
Doce aurora com o Sol imponente
Afinal, cada dia tem seu próprio esplendor
Minha dor eram dores
Que de um plural as tornei tão singular
E eis-me aqui, agora, ouvindo meu próprio coração
Tento lembrar de você, que jamais conheci
Estranho?
Estranho sou eu, invadindo o sonho teu
Não importa! De todo modo, abri a porta do tempo
E com o vento me fui ao teu encontro
Em algum horizonte perdido
Seus lençóis azuis amarrotados
Suas vestes lilás de qualquer jeito
A profundidade do teu sono perfeito
Estou aqui!
E quem será você?
Minha fabulosa estrela radiante
Minha criação estonteante
Decido parar o tempo
Porque nesse instante eu posso.
Neste momento eu quero
Meu desejo é tão simples
Tão puro e cristalino
Quase igual a água do meu riacho
Olho a maciez da tua pele
Um convite para minha aventura
E vejo teus poros arrepiar
Um toque sutil e maravilhoso
Um aroma no ar
Teu perfume gostoso
A razão se confunde com o sonho
Ela sabe a que me proponho
E o tempo volta a palpitar
Deixo-me pronto à entrega
E me envolvo em todo o teu ser
Com pinceladas de um grande artista
Cada milímetro de você
Passando por minhas mãos
Cada segundo do que sou
Se envolvendo na tua magia
Instantes são assim
Figuras em silhuetas
Sugerindo apenas o que se quer
Momentos são assim também
Irrigando a alma com desejos que convem
E minha vida segue ao léu
Com teus olhos com um céu
Com teu corpo feito planeta
Com meu desejo impresso em meus gametas.
Quem é mesmo você?
quinta-feira, 22 de abril de 2010
LEMBRANDO CECÍLIA
CANÇÃO
- Cecília Meireles -
No desequilíbrio dos mares,
as proas giram sozinhas...
Numa das naves que afundaram
é que certamente tu vinhas.
Eu te esperei todos os séculos
sem desespero e sem desgosto,
e morri de infinitas mortes
guardando sempre o mesmo rosto
Quando as ondas te carregaram
meus olhos, entre águas e areias,
cegaram como os das estátuas,
a tudo quanto existe alheias.
Minhas mãos pararam sobre o ar
e endureceram junto ao vento,
e perderam a cor que tinham
e a lembrança do movimento.
E o sorriso que eu te levava
desprendeu-se e caiu de mim:
e só talvez ele ainda viva
dentro destas águas sem fim.
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